Congressos, políticos e chuva

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Crónica de Opinião
Terça-feira, 13 Março 2018
Congressos, políticos e chuva
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Escrevo normalmente as minhas crónicas com alguma antecedência. Isso permite-me sobretudo a assiduidade, mas também evito deixar-me apanhar mais facilmente pela inevitável espuma dos dias, não deixando no entanto de estar atenta ao que acontece na hora. Até já tinha uma crónica escrita para hoje vos ler, mas sendo de assunto que não passará tão cedo da actualidade, guardei-a para outra semana e resolvi reagir ao que me aconteceu neste último fim-de-semana.

Gosto de assistir a congressos dos Partidos políticos, seja ao vivo, seja pela televisão ou pela rádio. Sei que é um gosto estranho. Deverei fazer parte dos talvez 1% dos eleitores, ou quem sabe menos, que têm esse mesmo gosto. O resto das pessoas tem mais que fazer e com que se entreter, o que não critico. Provavelmente falta-lhes tanto a paciência para as discursatas e os comentários de corredor em directo para os microfones ávidos de notícias frescas num mundo velho como o da Democracia, como a outros faltará a paciência para as novelas ou os jogos da bola e respectivos comentadores.

E além da paciência, talvez falte o hábito (ou já se tenham cansado dele) para tomar atenção às palavras e ao que elas trazem consigo nos contextos – espaço e momento – em que são proferidas. As palavras que poderão depois ser comparadas com as que aconteceram noutros contextos, o que requer algum exercício quer de atenção, quer de memória. E compará-las sobretudo com os actos, que em Política são as opções que se tomam, e onde as descoincidências são, estou em crer, um enorme factor de dissuasão para os que, interessando-se por Política e cumprindo o seu direito e o seu dever de eleitores, se “marimbam” para as reuniões magnas das associações que formam, enformam, amparam e seleccionam os que algum dia governarão ou condicionarão os que governam.

Outro exercício interessante, que é até nestes tempos facilitado pelos registos audiovisuais que os meios de comunicação guardam e disponibilizam para quase todos os que têm facilidade de acesso às tecnologias, é avaliar comportamentos típicos de elementos dessas organizações nesses contextos diferentes. Dá trabalho, quando não se têm de memória, o que acontece sobretudo quando se sentiu na pele o efeito desses comportamentos, pois como sabemos todos, não há melhor memória do que a das coisas que nos afectam os sentidos e os sentires.

Ora, no fim-de-semana, voltei então a ter com que me entreter em frente à televisão, para além da rádio e do computador a que me ligo quotidianamente. E muitas vezes para ver, ouvir e ler com mais atenção, e não como som de fundo de outros afazeres, o que naturalmente também acontece. Eis senão quando, começo a ouvir o discurso de um político na oposição, de nível nacional e europeu, ex, actual e futuro eleito de um Partido da extrema-direita à portuguesa, em que para além da forma inflamada com que anunciava o seu futuro nada mais disse que, espremido, não fossem chavões. Isto depois de ouvir (e confirmar, lendo o que foi também escrito) um texto de um político na governação, de nível local, de um Partido da extrema-esquerda, queixar-se de que a contestação e o seu espírito, que durante 12 anos andou a ensinar (quase como escolaridade obrigatória) aos cidadãos, são agora tristes e para esquecer. Tomei uma decisão para o resto do meu serão: vou mas é ouvir a chuva cair e continuar a ler (acto que requer também gosto e persistência) “A Estranha Ordem das Coisas” do António Damásio. Sempre aprendo alguma coisa de útil e confirmo outras de que já desconfiava.

Até para a semana.

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