Síria: O ataque de Trump não foi nem compreensível nem oportuno

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Crónica de Opinião
Segunda-feira, 16 Abril 2018
Síria: O ataque de Trump não foi nem compreensível nem oportuno
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Na madrugada do passado sábado Estados Unidos, Reino Unido e França lançaram um ataque conjunto à Síria.

Um ataque condenável a todos os títulos, não apenas porque foi uma retaliação contra o uso de armas químicas pelo Governo de Bashar Al-Assad, quando não há ainda provas quanto à autoria, mas porque foi um acto de guerra praticado à revelia do direito internacional sem cobertura das Nações Unidas e quando uma equipa de especialistas da ONU estava à beira de iniciar a investigação sobre o uso de armas químicas contra a cidade de Douma, em Gouta Oriental, que fez 75 mortos e 500 feridos no passado dia 7.

A condenação do uso de armas químicas, quaisquer que sejam as circunstâncias, não pode deixar de ser feita e de forma clara e inequívoca.

O uso em Douma é inaceitável e tem que ser condenado pela comunidade internacional, tenham elas sido usadas por Bashar Al-Assad apoiado pela Russia ou pelos rebeldes.

Mas, antes de mais, é preciso provar quem são os responsáveis. Ora, a pressa com que Trump, Teresa May e Emmanuel Macron decidiram retaliar, não augura nada de bom. Faz-nos lembrar a invasão do Iraque há 15 anos, precisamente com fundamentos idênticos. Mais tarde ficamos todos a saber que não havia provas alguma da existência dos armamentos que justificaram a invasão. Que tudo tinha sido uma encenação.

Também no caso do Iraque como agora a pressa do ataque antecipou-se ao trabalho dos peritos das Nações Unidas.

Desta vez, os objectivos anunciados foram punir o que Trump classificou como um acto monstruoso de Bashar Al-Assad pelo uso de armas químicas e destruir as bases onde supunham que a Síria produz e armazena o arsenal de armas químicas e biológicas.

Foram atacados 3 pontos alegadamente estratégicos, foram lançados 100 misseis, mas no final não sabemos se havia ou não os depósitos de armas químicas que o ataque visou destruir. A Síria veio mostrar a destruição de uma fábrica de medicamentos, alegadamente contra o cancro, procurando também assim capitalizar a seu favor o ataque.

Não está em causa fazer a defesa do regime de Bashar Al-Assad que tem explorado os sírios e tem feito desaparecer, prendido e morto muitos milhares de civis que politicamente se lhe opõem e que, também, nesta guerra, tem cometido muitas atrocidades contra o seu povo.

Não está em causa a defesa do regime sírio, um regime autoritário. Bashar al Assad é presidente porque simplesmente sucedeu em 2000 ao pai, e não o é em resultado de qualquer eleição. E o pai Hafez al -Assad também ele tomou o poder em 1970 num golpe militar.

Não pode é legitimar-se a actuação desta coligação ocidental, nem deixar de condenar o ataque dos Estados Unidos, da França e do Reino Unido em violação do Direito Internacional.

E o Governo português, apesar de não dar o seu apoio claro ao ataque veio classifica-lo como “compreensível e oportuno”. Marcelo Rebelo de Sousa veio secunda-lo.

Não, não é nem compreensível nem oportuno o ataque à Síria. Pelo contrário é uma escalada irresponsável de incitação à guerra que não sabemos até onde pode levar.

Legitimar a actuação dos Estados Unidos, da França e do Reino Unido e este ataque em violação do Direito Internacional não é o caminho. É preciso que a comunidade internacional se empenhe e que prossigam os esforços para a resolução do conflito sírio, garantindo a todos os povos sírios, incluindo os curdos, a possibilidade de escolherem o seu futuro livre e democraticamente.

Até para a semana!

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