10 de Junho, Portugal e José Cutileiro

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 10 Junho 2020
10 de Junho, Portugal e José Cutileiro
  • Alberto Magalhães

 

 

Resolvi assinalar o “10 de Junho”, com excertos de uma crónica assim chamada, escrita há cinco anos por José Cutileiro, falecido a 17 do mês passado, e incluída no seu último livro: Inventário – desabafos e divagações de um céptico:

Começava assim: “Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo.” Este verso da Feira Cabisbaixa de Alexandre O’Neill ressoa em mim. Tentei ver-me livre dele por via pós-moderna – “Portugal é questão que Alexandre O’Neill tem consigo mesmo” -, mas, sendo o pós-modernismo um rosário de asneiras, a esperteza não me ajudou a sair do labirinto.

Alguns anos depois, o homem de teatro Mário Viegas, em campanha para a Presidência da República, lançou esta palavra de ordem: “Europa não. Portugal nunca!” Também ressoou em mim”, mas, mais à frente, continuava Cutileiro: “(Hoje digo sim à Europa. Sabe-se que, para quem não tenha muita fé, não há nada pior do que ir a Roma; no meu caso, quinze anos de vida em Bruxelas fizeram de um eurocéptico um europeísta. E passei a preferir “Portugal sempre” a “Portugal nunca”: sabedoria ou senilidade?)”

Por fim, José Cutileiro evoca os Bilhetes de Colares, escritos por ele na imprensa entre 1982 e 1998, sob o pseudónimo de A. B. Kotter:

Na paz e democracia do Portugal europeu de hoje, um inglês da Várzea de Colares – Deus lhe tenha a alma em descanso – gabava-se de ser o único colunista da imprensa lisboeta que gostava de Portugal; os seus confrades lusos não paravam de dizer mal do país. Alguém lhe explicou. Ele louvava Portugal, mas se estrangeiros viessem atacá-lo, meter-se-ia no primeiro avião para Londres. Os confrades lusos talvez não gostassem de Portugal, mas amavam-no, e se estrangeiros investissem, morreriam por ele. Simples, no fundo.”

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