125 anos de Biblioteca Pública

Crónica de Opinião
Terça-feira, 21 Janeiro 2020
125 anos de Biblioteca Pública
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

 

Os 125 anos que passaram democraticamente sobre várias bibliotecas envelhecem-nas de forma diferente. A biblioteca a que dedico esta crónica, e que festeja 125 anos, é fora do Alentejo, até de Portugal: é a Biblioteca Pública de Nova York. Não toda pública uma vez que é gerida por entidade privada sem fins lucrativos. Para começar o ano desta comemoração, provavelmente fruto do trabalho de alguns dos seus três mil e muitos funcionários especializados nestas contabilidades de rankings, publicou uma lista dos 10 mais requisitados livros de sempre, com uma adenda de honra. O que me mereceu motivo para vos falar deste assunto, a partir de Évora, foram as conclusões curtas e claras que puderam ser retiradas deste aparentemente leve exercício de comunicação e publicidade de rankings, que tanta gente desmerece; mas também foi a divertida e entusiasmante história da menção honrosa desta lista, para a qual um colega com quem interajo na minha rede de amigos no Facebook me alertou1. (É que cada um tem a rede social que merece e eu aprendo muito com a minha, mesmo não tendo lido o único livro de autoajuda deste ranking que, veja-se, data de 1936 e anuncia o título que trata de como fazer amigos e influenciar pessoas. Talvez os utilizadores das Redes Sociais não se dêem conta de que frequentá-las é qualquer coisa como poder dizer que se os amigos são a família que escolhemos, então os membros da nossa rede social são aqueles com quem escolhemos conviver socialmente, quando há distância e sossego para esse convívio.)

Das conclusões publicitadas, destaco estas: os livros mais curtos circulam mais e os mais longos ficam nas casas dos leitores durante mais tempo, com mais renovações de empréstimos; como não têm livros só em inglês mas traduzidos ou originais de outras línguas, quanto mais idiomas mais empréstimos; quanto mais tempo os livros se mantêm em listas de aconselhamento para leitura nas escolas, mais leitores têm; assim como os que recebem mais prémios, os que tratam assuntos mais globais e menos locais, mais universais mas também os que tratam assuntos de que se fala mais fora do mundo dos livros, todos estes saem mais das estantes. Parecem, pois, lançadas as dicas para fazer clássicos desempoeirados e dar a perceber a quem ainda não o conseguiu, o que também é a Literatura.

A outra curiosidade é a escolha para menção honrosa de uma obra que parece ter adulterado este Top 10. Trata-se de uma obra também para público infanto-juvenil, como seis das que figuram no ranking selecto de leituras, que tendo sido publicada em 1947 só em 1972 foi adquirida pela Biblioteca e passou a morar em Manhattan, e nos polos por onde a PLNY se espalha, para ser lido à borla pelos seus cidadãos. Goodnight Moon de Margaret Wise Brown não entrou nos catálogos desta importante biblioteca porque uma, sim uma, bibliotecária, a que era responsável pelo sector infanto-juvenil, embirrou com o livro, escrito num estilo mais progressista de uma corrente que nascia noutro bairro da Grande Maçã. Anne Carroll Moore de seu nome, exerceu entre 1906 e 1952 e conhecer a sua história parece valer muito a pena. A importância que teve quer na promoção da leitura, quer na influência da vida comercial deste e de outros livros e gerações dos leitores que frequentaram aquela biblioteca, contribui para tornar mais verosímil a ideia de que a vida ou morte de uma andorinha pode trazer ou levar a Primavera. Parece um enredo de ficção, com traços de ironia poética, mas não é. Foram vidas, de pessoas e instituições. E umas fazem outras, em muitas áreas.

Até para a semana.

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