O que uma criança tinha de gramar

Nota à la Minuta
Terça-feira, 14 Maio 2019
O que uma criança tinha de gramar
  • Alberto Magalhães

 

 

Hoje em dia, é comum ouvir-se – e com inteira razão – que os adultos são demasiado permissivos com as crianças, que os pais não conseguem estabelecer regras de conduta e impôr limites ao comportamento dos filhos. Há até muito boa gente – e não necessariamente os mais idosos – que tem saudades de um mítico passado, onde as crianças aprendiam a comportar-se. Sim, aprendiam mas – é preciso dizê-lo com frontalidade – há 60 ou 70 anos o pêndulo estava no outro extremo, o do autoritarismo. Para recordar esses tempos, gosto de um poema, do escritor e encenador alemão Bertolt Brecht, intitulado “O que uma criança tem de gramar”, e que diz assim, na tradução de Arnaldo Saraiva:

Os olhos de Deus vêem todas as vias

Faz as tuas economias para o pior dos dias

O mandrião nada de bom deixa em herança

Muito ler os olhos cansa

Carregar carvão desenvolve a musculatura

Um belo tempo da infância que tão pouco dura

Não te rias dos enfermos

Com os adultos não se discute e têm-se termos

Quando à mesa te fores sentar nunca te sirvas em primeiro lugar

Passear ao domingo é muito salutar

Um velho respeito merece

Não é com bombons que um menino cresce

Mais são do que as batatas não há nada

Criança educada deve saber estar calada.