25 de Abril: o dia em que nos tornámos realistas e exigimos o impossível

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 23 Abril 2018
25 de Abril: o dia em que nos tornámos realistas e exigimos o impossível
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Depois de amanhã estaremos mais uma vez a celebrar o 25 de Abril.

Celebramos o dia em que a Liberdade nos bateu à porta pela mão dos jovens capitães. Mas celebramos – e é isso que eu celebro – o dia de todas as esperanças. O dia em que nos tornamos realistas e exigimos o impossível!

Para nós mulheres, apesar de pouco se falar disso e de nós próprias muitas vezes nos esquecermos , o 25 de Abril foi duplamente libertador.

Libertou-nos de um regime político que nos oprimia e nos negava as liberdades mais básicas enquanto cidadãs, e abriu também o caminho da igualdade entre homens e mulheres, um caminho que foi e é feito de muitas lutas, que está ainda longe de ter chegado ao fim.

Mas ainda assim é importante que nos recordemos que no 25 de Abril, nós mulheres eramos pouco mais que invisíveis. Relegadas para um papel secundário, muitas eramos “formatadas” exclusivamente para o papel de mãe e dona de casa.

As mulheres tinham em Portugal um estatuto – mesmo jurídico – brutalmente discriminatório: Estavam-lhe vedadas algumas profissões. Não podiam, por exemplo, ser juíz ou diplomata. Noutros casos as mulheres precisavam de autorização especial para casar e, nalgumas profissões – como hospedeira de bordo – o casamento era proibido.

As casadas não podiam viajar para fora do país sem autorização dos maridos e estes tinham o direito de lhes abrir a correspondência. Aos maridos cabia o estatuto legal de chefe de família o que não era coisa pouca, já que lhes dava o direito de administrar os bens das mulheres, tomar as decisões sobre os filhos.

Numa sociedade autoritária e muito conservadora, votavam apenas as mulheres que tinham o estatuto de chefe de família, o que acontecia por exemplo às viúvas, e era preciso ter um grau de escolarização médio enquanto que os homens podiam se analfabetos.

É bom também lembrar que o divórcio não era permitido em Portugal, antes do 25 de Abril e que os filhos nascido fora do casamento eram registados como ilegítimos, um ferrete à época pesado para muita gente.

Muitos destes anacronismos só terminaram em 1976 com a revisão do Código Civil, e tudo isso só foi possível graças ao 25 de Abril e, claro, à luta das mulheres.

Para muitas jovens tudo isto poderá parecer irreal e até fantasioso. E ainda bem que assim é, porque significa que nasceram e vivem já numa sociedade mais igualitária.

Andámos muito nestes 44 anos, avançamos muito, é certo, mas há tanto ainda por fazer!

Em Portugal as mulheres são ainda mais afectadas pelo desemprego e continuam a ter a remuneração quase 20% mais baixa que os homens, apesar de terem mais formação.

E continuam a ser as mulheres as principais vítimas de violência de género e as mortes continuam a somar-se. Mais preocupante ainda é que os comportamentos violentos verificam-se logo no namoro e os últimos estudos dizem-nos que atingem 56% dos jovens. Pior, muitos e muitas jovens acham isso normal.

Também está longe de ser cumprida a paridade de género no exercício de cargos de decisão nas empresas, nos serviços públicos, no Parlamento. Continua a ser preciso impor quotas e regras para a participação das mulheres na vida pública e, infelizmente, continuamos a ver responsáveis políticos a oporem-se a tal.

Por isso é preciso que o 25 de Abril seja um dia de festa, mas também um dia de luta.
Luta pela mudança, pela construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Porque afinal o impossível está nas nossas mãos.
Viva o 25 de Abril!!!

Até para a semana!

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