43 anos depois, a essência não mudou

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 20 Abril 2017
43 anos depois, a essência não mudou
  • Eduardo Luciano

 

 

Há 43 anos aproximava-se o fim de uma longa ditadura no nosso país e iniciava-se um processo revolucionário que pôs fim à guerra colonial, que permitiu conquistas e avanços civilizacionais que hoje damos como adquiridos, quantas vezes esquecendo que coisas tão simples como a liberdade de expressão, o salário mínimo ou o direito à greve nos estavam vedados. Foram dezoito meses que correram a uma velocidade alucinante e que nos mostraram um vislumbre do que poderia acontecer se fossemos donos do nosso futuro.

Tratou-se de um processo combatido, desde o seu início, pelos defensores do colonialismo, pelos saudosos do “ordem” dos tempos da ditadura, pelos detentores do poder económico, pela hierarquia religiosa que suportou o anterior regime e naturalmente pelos Estados Unidos que se apressaram a enviar para Portugal o organizador do golpe sangrento que tinha derrubado, meses antes, o governo de Unidade Popular do Chile.

Lembro isto a propósito das comemorações da Revolução de Abril e do cerco que se está a apertar em torno da Venezuela, montado e organizado pelo regime de Washington (para usar uma terminologia que a comunicação social dominante usa relativamente aos governos dos países que estão na sua lista negra).

Na complexa situação existente na Venezuela detectamos a ingerência externa, o boicote económico através da imposição de sanções, o financiamento de uma oposição interna que lhes segue os ditames, a permanente ameaça militar supostamente justificada por considerarem a Venezuela uma ameaça para a segurança nacional e a política externa dos Estados Unidos.

Quando as coisas assumem estas proporções não pode haver lugar a hesitações sobre a quem é devida a solidariedade, a pretexto de ir a reboque do que é “aceitável” pela opinião pública, diariamente envenenada com a versão dos acontecimentos que o regime de Washington entende promover.

Discordâncias sobre este ou aquele caminho escolhido pela revolução bolivariana não podem servir de desculpa para posições de suposta neutralidade ou equidistância, que apenas revelam o oportunismo sempre latente de quem procura a onda mais alta para surfar.

Comemorar Abril também é lembrar como foi organizada a contra-revolução no nosso País, quem a financiou e quem se prestou a ser um joguete nas mãos de interesses alheios aos do povo português.

Comemorar Abril também é voltar a lembrar a genorosa solidariedade com os chilenos exilados que escolheram o Portugal de Abril para continuar a sua luta.

Comemorar Abril também é demonstrar a solidariedade com os venezuelanos que são hoje o alvo de processos historicamente bem conhecidos.

Comemorar Abril também é lembrar o direito inalienável dos povos à autodeterminação e a decidirem em paz e sem ingerências externas o seu destino colectivo.

Também assim se dá sentido e actualidade a Abril como projecto de futuro.

Até para a semana

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