Acabou a polícia da moralidade?

Nota à la Minuta
Segunda-feira, 05 Dezembro 2022
Acabou a polícia da moralidade?
  • Alberto Magalhães

 

 

Há dois meses gravei uma Nota a que dei o título “Contra a polícia da moralidade”. Agora, segundo parece, com um Irão em autêntica polvorosa revolucionária, as patrulhas dessa tenebrosa corporação desapareceram das ruas. Curiosamente, o procurador-geral iraniano referiu aos jornalistas que elas não têm nada a ver com o sistema judicial do país e que “quem quer que as tenha lançado fechou-as”. Mas logo acrescentou que a justiça não deixará de monitorizar o “comportamento em sociedade”.

Se não devemos esquecer que a ocidentalização exacerbada, imposta pelo Xá Reza Pahlevi, foi um dos pilares que sustentou a tomada do poder pelos ayatolah, nos anos 70, o seu regime excedeu em muito o humanamente suportável, ao criar uma polícia de costumes muito dedicada a controlar a conveniente ocultação das madeixas femininas por baixo dos hijab.

Em cada momento, para cada sociedade, parece existir um ponto de equilíbrio instável entre a autonomia individual – que tem atingido extremos nas democracias liberais – e as normas e costumes sociais mais ou menos arreigados nas comunidades. Quando o pêndulo se desloca muito e demasiado tempo para um dos lados, tende a deslocar-se depois no outro sentido.

Ao que parece, no Irão, as dificuldades económicas sofridas pela população e o contacto dos jovens com as liberdades individuais dos seus pares ocidentais, tê-los-ão levado a um ponto de exasperação extraordinário. Começou tudo pelas jovens mulheres, as mais atingidas pela coacção dos costumes e as restrições da autonomia individual. Mas parece estar a alastrar, por toda a sociedade, como fogo na pradaria. Oxalá permita as grandes mudanças necessárias.

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com