Quaresma. E assim vai o mundo.

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 28 Março 2024
Quaresma. E assim vai o mundo.
  • Nuno do Ó

No final desta semana santa, para o mundo cristão, celebra-se a Páscoa. Trata-se da festividade religiosa do cristianismo que celebra a ressurreição de Jesus ocorrida no terceiro dia após a sua crucificação no Calvário e que assim O consagra como sendo Filho de Deus. O domingo de Páscoa ou de Ressureição, segundo o Novo Testamento, marca o ponto alto das comemorações da Paixão de Cristo, depois de se concluir um período de quarenta dias de jejum, de orações e penitências, designado por Quaresma.
Hoje mesmo comemoramos a Quinta-Feira Santa, que celebra a Última Ceia e a cerimônia do Lava-pés que a precedeu. Esta mesma Páscoa, como todas as anteriores, será seguida por um período de cinquenta dias, chamado Tempo Pascal, que se estende até ao Domingo de Pentecostes e que comemora o regresso definitivo à vida do filho de Deus.
Entretanto, como outros por aqui mesmo mas em nome de Deus, o sumo pontífice continua a apelar à paz no mundo, com o efeito que temos visto. Um incontável número de mortos assombra os nossos dias, na Ucrânia, na Palestina, na Síria e na generalidade do Médio Oriente, na guerra civil do Iémen, no Burkina Faso, na Somália, no Sudão, em Myanmar, na Nigéria, e assim, também, na generalidade de África, para além de um sem número de vítimas de conflitos armados espalhados por todo o mundo, como em Moçambique ou no Havai, que nos permitem afirmar que o mundo é um lugar cada vez mais violento, apesar das preces, das penitências, dos jejuns e da reflexão. Apesar dos apelos do Santo Padre, aparentemente recebidos com a mesma indiferença e até a oposição e a contrariedade com que se receberam desde logo os mesmos apelos do Conselho Português para a Paz e Cooperação ou do Partido Comunista Português.
Apesar disso tudo, apesar de todas as preces do Santo Padre, das orações e do católico perdão, as centenas de milhares de mortos que ocorreram em 2023, vítimas da guerra, talvez façam deste ano passado, o infeliz recordista de mortes no mundo.
Apesar disso, a escravatura continua, destruindo vidas de homens, mulheres e crianças, de emigrantes e de imigrantes. Os abusos sexuais perpetrados desde tempos imemoriais pela igreja, contra as crianças que se propôs proteger, continuam sem aparente julgamento, sem consequências visíveis, perante a incapacidade ou até a indiferença de milhões de cristãos, de crédulos cujo perdão se repete em faustosas procissões, louvando o nome do Senhor.
E o Santo Padre reza pelo mundo, na janela habitual do palácio supremo do seu país, no centro de Roma. Com ele, milhões de fiéis, cristãos e outros, quase todos indiferentes ao seu semelhante e ao curso da humanidade na terra, aspirando somente ao seu particular paraíso celestial, aceitando desde já o inferno terreno, a injustiça, os vendilhões deste templo e do nosso tempo.
A fome e a pobreza propagam-se como um vírus, por esse mundo fora, tal como a riqueza de uns quantos, que vivem dos despojos dos restantes e que esperam viver o paraíso, aqui mesmo e já, ainda que nunca o possam encontrar, mergulhados que estão na solidão e na sumptuosidade dos milhões, que nunca lhes chegarão e que não levarão consigo para o céu.
Cristãos, judeus, muçulmanos e uma miríade de outros religiosos e fiéis rezantes, penitentes e servos do senhor, em nome dos seus Deuses, continuarão a disparar as balas da miséria que atormentam o mundo em permanência.
Tal como o Santo Pontífice no Vaticano, os restantes sumos sacerdotes e muitos de nós, continuarão a rezar e pouco mais. Talvez mesmo, nada mais, esperando que Ele faça alguma coisa, aquilo que não fomos capazes ou não queremos fazer, esperando, em qualquer caso, pelo menos, a vida eterna, mesmo que, aparentemente, só mereçamos a morte eterna, como tudo indica que acontecerá.
O Papa e todos os seus fiéis cristãos continuarão a rezar enquanto centenas de milhares perecem à nossa volta, perante os disparos das munições cristãs. No Ramadão que se inicia, continuarão a ajoelhar perante Alá, entoando as rezas sagradas, enquanto as bombas continuam a cair. A Páscoa Judaica não trará tréguas e a Festa da Libertação judaica acontecerá enquanto se sacrificam os agora seus escravos, sem libertação à vista, 3500 anos depois do êxodo do Egipto. Todos rezarão pelo fim, fim que não parece ter fim à vista, enquanto o mundo inteiro reza.
Entretanto, os poucos que apelam à paz, vão sendo ignorados pelos bondosos cristãos. Que ele há coisas que não se perdoam. Entretanto, o Sumo Pontífice, naturalmente perdoado, voltará a apelar à glória a Deus nas alturas e à paz na terra aos homens por Ele amados, presumindo naturalmente que o criador amará todas as suas criações, mesmo aquelas que nós achamos por bem matar.
Entretanto Deus, o Deus de todos e de cada um, parece ter submergido no universo, certamente com a ideia de criar novos mundos, melhores mundos, depois deste seu primeiro aparente insucesso, aqui mesmo, na Terra. Pelo que parece, aguarda-se que ele volte, a rezar, para corrigir as notórias imperfeições desta sua criação.
Entretanto, continuaremos a rezar. Alguns, só isso mesmo. Como disse Francisco, para que a nossa vida se torne: shalom, paz, salam!

Amém… e até para a semana!

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