8 de Março

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 08 Março 2021
8 de Março
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Desde 1975 que a ONU adoptou o Dia 8 de Março como Dia Internacional da Mulher destinado a celebrar as conquistas das mulheres ao nível social, político e económico “provenientes dos mais diversos contextos étnico, culturais, socioeconómicos ou políticos “ e que pretende seja de reflexão sobre os avanços nos direitos das mulheres.

Muita coisa mudou desde que a celebração anual do Dia da Mulher foi adoptada numa Conferência da Internacional Socialista em 1909, por iniciativa de Clara Zetkin, quando as mulheres lutavam por direitos civis e direito ao voto, faziam greve nas fábricas e lutavam nas ruas por igualdade dos salários e dos horários de trabalho.

A pouco e pouco alguns direitos, como seja o direito de voto, foram reconhecidos às mulheres e hoje muitos dos direitos civis estão realizados e a lei, na maioria dos países ocidentais, consagra já a igualdade entre homens e mulheres.

E com isso o sistema político foi-se apropriando da data, procurando que de dia de luta o 8 de Março passasse a dia de celebração.

Estou certa de que hoje muitos homens darão os parabéns às amigas e colegas de trabalho, com boa intenção, mas continuam a não reconhecer até que ponto estão a perpetuar, no dia a dia, o modelo patriarcal da nossa sociedade.

Estou também certa de que muitas juntas de freguesia e câmaras municipais colocarão hoje cartões nas caixas de correio e algumas até uma flor, e os responsáveis governamentais farão discursos sobre igualdade.

Até a CIP – Confederação Empresarial de Portugal marcou um evento para discutir as desigualdades de género no emprego e afirmando que celebrava esta data como um legado histórico e não um dia de luta. Mas o painel para o debate era exclusivamente composto por homens.

Mas apesar desta apropriação da data como momento festivo, nós mulheres sabemos que a discriminação e as desigualdades continuam e que a pandemia ainda as veio agravar.

As mulheres têm por regra dupla jornada de trabalho, trabalham fora de casa e em casa e agora, com o teletrabalho e os filhos em casa, muitas estão à beira do esgotamento. Em tempos “normais” as mulheres trabalham em tarefas domésticas mais 2 horas por dia que os homens, a que acresce o papel de cuidadoras dos velhos, dos doentes e das crianças.

A pandemia veio reavivar os papéis tradicionais e acentuar ainda mais o peso das tarefas domésticas sobre as mulheres.

Como todos sabemos, apesar de a lei consagrar a igualdade no trabalho e no emprego as empresas não contratam mulheres grávidas ou que estejam a amamentar e que se isso acontece a uma trabalhadora precária o contrato não será renovado.

São as mulheres as que têm mais contratos precários e foram as mulheres as primeiras a perder o emprego nesta pandemia de COVID 19, mas são as trabalhadoras da economia invisível, as empregadas domésticas, da limpeza, as cuidadoras informais, as imigrantes, as principais afectadas pela falta de reconhecimento dos direitos.

Empresas privadas, entidades do sector solidário e públicas continuam a faltar às mulheres quando se trata de realizar, na prática, a igualdade no emprego, no salário, nos direitos laborais incluindo no direito à carreira.

Num estudo do final do ano passado, o ISEG concluiu que as diferenças salariais entre homens e mulheres são da ordem dos 20%, e não de 14% como diz a Segurança Social. Ou seja, em cada semana de trabalho as mulheres trabalham um dia de graça face aos homens.

E apesar de há várias décadas o número de mulheres que concluem o ensino superior ser muito superior ao dos homens, em alguns períodos mais que o dobro, continuam a não chegar ao topo no trabalho. Nas grandes empresas do PSI 20, dos administradores executivos apenas 10% são mulheres, demonstrando que o tecto de vidro continua a manter-se.

Direitos tão óbvios como o direito a usufruir plenamente do espaço público continuam a ser denegados às mulheres. Todas nós sabemos o que é sentir insegurança na rua e de como à noite temos cuidados redobrados.

Há ainda um caminho longo para concretizar a igualdade e pôr fim à discriminação, aos maus tratos e à violência de que são alvo nas relações de intimidade e que anualmente mata tantas mulheres. Como em tudo, nada nos é dado de mão beijada.

8 de Março não é ainda dia de festa, é dia de lutarmos pelos nossos direitos. E que nenhuma de nós fique para trás.

Até para a semana!

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com