A arte de construir afetos I

Crónica de Opinião
Sexta-feira, 07 Abril 2023
A arte de construir afetos I
  • Glória Franco

 

Viva

O Dia Mundial do Teatro foi celebrado no passado dia 27 de março, no entanto, não quero deixar passar a data sem escrever algo a respeito de uma atividade com a qual, desde muito cedo, tive o privilégio de coabitar.
Prática ancestral, o teatro é um jogo no qual tanto atores como espetadores, todos são intervenientes e cúmplices, é um grande jogo jogado por todos.
Tendo deixado para trás a sua função mais moralizadora, do que societária, esta arte ainda tem alguma dificuldade em se impor junto das escolas, particularmente junto da população mais nova.
Sabendo que o teatro, como atividade lúdica contribui para o desenvolvimento da concentração, desinibição e da expressão verbal, este ainda não possui um papel devidamente reconhecido junto das populações.
Se a necessidade em estimular o pensamento crítico deve ser encarada como um dos caminhos para a liberdade, o teatro tem aqui um papel fundamental. Mas o seu papel não fica por aqui, a ligação harmoniosa entre corpo, pensamento e sentimento, tão importante para o desenvolvimento dos mais novos ajuda à formação de crianças equilibradas, conscientes, atentas, críticas e responsáveis.
Não vos quero maçar com a história do teatro, não cabe nestas crónicas tal desplante da minha parte, apenas quero alertar para a sua importância na formação das crianças e como este nem sempre está a conseguir atingir os seus objetivos.
A distinção entre teatro para crianças e teatro de crianças, nem sempre está devidamente apartada. Mas esta questão iria levar-me muito longe, fica para uma crónica futura.
Nas escolas esta atividade continua a ser feita para deleite dos pais e regozijo dos docentes que escolhem as peças, as encenam, ensaiam sem que as crianças possam opinar sobre o que lhes é proposto. Estas representações escolares nunca deviam ser nem moralizantes, nem didáticas, apenas deviam apostar no desenvolvimento do imaginário, confrontando com ideias a atitudes societárias.
Muitos professores ainda fazem questão em colocar as crianças nos papéis de atores, debitando recitas que, muito pouco, ou nada, tem a ver com os seus interesses e/ou realidades. A espontaneidade não é bem recebida e o espaço para a improvisação não é aceite nem reconhecido. Tudo tem de ser decorado e ensaiado até à exaustão, para contentamento dos adultos.
Esta não aposta na espontaneidade começa a contribuir para o aparecimento de falantes com dificuldades na expressão oral e cuja comunicabilidade é cada vez mais difícil, pois é frequentemente questionada e travada.
O desenvolvimento da imaginação e as relações de socialização, entre pares, constroem-se brincando e consolidam-se através da espontaneidade e do jogo do faz de conta. Se não lhes é permitido as desenvolverem, durante a infância, com a avançar da idade, o improviso perde-se dando lugar a alguma iliteracia oral.
Levar a criança a pensar, a refletir e a expressar-se livremente devia fazer parte de qualquer plano de atividades da educação pré-escolar do ensino básico.
A consolidação da autonomia está diretamente ligas à capacidade de brincar.
Se, para a semana, não se impuser outro assunto, continuarei a abordar este tema.

 

Saudações LIVRE’s
Até para a semana

 

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