A arte de construir afetos III

Crónica de Opinião
Sexta-feira, 21 Abril 2023
A arte de construir afetos III
  • Glória Franco

 

 

Viva

Termino hoje, esta série de 3 crónicas sobre o Teatro e a infância.

A atual não aposta na espontaneidade e a dificuldade com que esta é recebida por parte de quem deveria ter sensibilidade para com o assunto, está a contribuir para que as “nossas” crianças estejam a revelar cada vez mais dificuldade na expressão oral e grande limitação de vocábulos. Os discursos estão cada vez mais empobrecidos, a falta de vocabulário e o número crescente de brasileirismos, utilizados pelas crianças mais novas, é bem revelador da falta de atenção para com a oralidade.

A juntar a tudo isto, o teatro para a infância continua a ocupar um lugar secundário no espaço teatral nacional, onde ainda não conseguiu ocupar o espaço que lhe é devido.

Sendo a perceção, ao nível do imaginário, intuitiva e muito pouco intelectualizada, o jogo dramático ocupa um papel proeminente desta fase da vida. É através dele que as crianças vivem, revivem, criam e recriam acontecimentos que lhes interessam, que as marcaram e, em simultâneo, desenvolvem respostas para essas situações.
É aqui que se retratam os medos, as angústias, as alegrias e toda uma mescla de sentimentos.

Assim, entrando o Teatro no universo infantil, cada vez mais cedo, com o alargamento da educação pré-escolar, iniciou-se uma importante etapa que urge agarrar, que não de podemos adiar.
Mas a descentralização teatral ainda está por fazer. Para assistir a uma récita, as crianças, do interior do país, são obrigadas a percorrer longas distâncias.

Se o teatro para os mais novos não pode ser considerado um espetáculo menor; o ponto de partida é sempre o mesmo, qualquer que seja a faixa etária a quem se destine: seriedade, empenho, honestidade, verdade e acima de tudo profissionalismo. Mas apesar de tudo, as diferenças têm de existir, as crianças não são adultos em tamanho reduzido. A escolha de textos tem de ser cuidadosa tendo em conta não só a linguagem utilizada como os conteúdos a serem transmitidos. A narração tem de ser escolhida tendo em conta a singularidade do público. Infantilizar os textos pode ser sinónimo de atestados de imbecilidade para com um público tão exigente.

A criatividade expressa-se no encontro entre atores e espetadores. É no embate entre os que dão e os que recebem, que o teatro sobrevive.

É necessário abrir o caminho aos sonhos, sem defraldar as realidades.

Criar o desejo do Teatro também compete às famílias e não só às instituições de educação/ensino. São estes quem deve cultivar os desejos de uma arte única em que a reciprocidade, entre ação e reação é, ou deve ser, a realidade vivida e nem sempre refletida.

Por tudo isto, continuo a olhar para o teatro para a infância, como a construção de uma política de inconformidades, onde os espetadores possam ser participantes ativos e críticos; onde as crianças possam sonhar e inventar quotidianos; onde possam brincar com os sonhos nas suas diversidades e adversidades.

Mas o teatro também vive da liberdade dos seus intervenientes, da liberdade dos figurinos, das encenações, das reações e das representações.

O teatro continua a viver do mundo onde as crianças se sintam felizes.

O Teatro é isto tudo.

Saudações LIVRE’s

Até para a semana

Glória Franco

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