A banalidade do esquemazinho

Nota à la Minuta
Segunda-feira, 22 Novembro 2021
A banalidade do esquemazinho
  • Alberto Magalhães

Hannah Arendt, falou em ‘banalidade do mal’, referindo-se aos que participaram na indústria de morte nazi, que ficou conhecida como Holocausto, ‘apenas’ cumprindo ordens superiores ou rotinas burocráticas e evitando sentir grandes pruridos morais. Claro que o conceito, sendo controverso, aplicava-se relativamente bem ao povo alemão. Tivesse a filósofa estudado os portugueses e, em vez da ‘banalidade do mal’, teria porventura enunciado a ‘banalidade do truquezinho’, ou do ‘esquemazinho’, infinitamente menos grave que o extermínio de judeus, mas, ainda assim, com a mesma ausência de incómodos juízos morais.

Assim, quem, de boa-fé, poderá negar que um túnel é muito mais arejado e promotor da biodiversidade que uma estufa? E se os compradores exigem as framboesas embaladas em plástico, como levar a mal que se dê sempre razão aos clientes? Será isto impedimento para que se lute ‘politicamente’ pela proibição das palhinhas de plástico?

Bom, se a deputada Inês Sousa Real não declarou ao Tribunal Constitucional, a empresa imobiliária do cônjuge – com quem, de facto, já era casada com comunhão de adquiridos à data da aquisição – foi por, naturalmente, prezar tanto a autonomia financeira do marido que se esqueceu de que legalmente tinha, da empresa, metade. Já quando se quis desfazer da participação que detinha noutra empresa, a Berry Dream, Lda, ao descobrir que a burocracia a impedia de ceder a quota, directamente, ao marido, decidiu usar o proverbial ‘desenrascanço’ português, e fez uma triangulação com a sogra, ficando tudo, no fim, nas mãos do casal. O PAN, o rigoroso partido de que Inês é porta-voz, declarou que esta operação “foi feita de boa-fé, sem qualquer simulação, de forma completamente voluntária”, o que não deixa de ser bonito… e banal.

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