A Boa Morte

Crónica de Opinião
Terça-feira, 18 Fevereiro 2020
A Boa Morte
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Quando sabemos de alguém que morre velhinho, sem sofrimento, apagando-se como uma vela que arde até ao fim, achamos que é uma boa morte. Também há lugares que se chamam da Boa Morte, o que seria equivalente a chamarem-se da Eutanásia, já que etimologicamente é o que a palavra que mais se ouviu e ouvirá por estes dias significa.

Morrer é sempre mau, sobretudo para quem gosta de viver, mas é o prognóstico infalível para quem corre o risco de ter nascido. Nasce-se por vontade de outros, quando até temos sorte e somos desejados, o que não acontece a todos; o ideal seria podermos escolher como morrer. E ter a coragem ou a loucura – não há exclusividade de perspectivas – de ter essa decisão na mão, se o caso for uma questão de forma de vida. O que também não rejeito, especialmente se os danos colaterais do acto suicida forem mínimos. Morrer às próprias mãos, dir-se-ia. Eis também a questão ética que a lei da eutanásia levanta, como a da criminalização das tentativas de suicídio de má memória.

Se nascer e morrer são condições naturais, as circunstâncias em que acontecem são condições que dizem respeito à sociedade e respectiva organização, numa perspectiva de melhorar o bem-estar. A Assembleia da República faz essas leis e elas são, apesar das opiniões que permitem e que divergem, tão mais úteis à sociedade em que vigoram, do que as leis sobre o sentido da Humanidade, como aquela que escreveu o Quinto Mandamento. Sim, que dos outros Mandamentos as adaptações não parecem ter sido polémicas.

Eutanásia, a boa morte. Como não poder ter-lhe acesso quando a vida chega à fase terminal com dor e sofrimento? Falo da vida biológica, desculpem a redundância, não da vida dos prazeres e alegrias breves que, quando falta, é tratável pela mesma ciência que pode assistir a morte quando não se quer ficar à espera de uma intervenção divina, ou o que se lhe queira chamar, à morte natural.

Não entendo a posição da Igreja: para quê um referendo se a opinião já está feita e a catequese a ensina? Mas essa espécie de provação que impõe aos seus mais fiéis seguidores é o lado religioso da questão, a que quem quiser obedecer a lei em discussão continua a permitir. Da perspectiva jurídica, ninguém é obrigado a matar, nem ninguém é obrigado a escolher morrer. A ética fica na opção. É mais difícil do que só obedecer? Talvez, para alguns. Eu cá gosto daquela parte que algumas religiões ensinam e que se chama o livre-arbítrio. E é por isso que gosto desta lei que, espero, nasça no lugar próprio onde nascem as leis. Também é por isso que eu voto e quero que o meu voto seja usado, ali, naquela assembleia. Espero que aqueles em quem eu votei para me representarem, não me desiludam.

Até para a semana.

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