A bofetada do Óscar

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 30 Março 2022
A bofetada do Óscar
  • Alberto Magalhães

 

 

Que dizer de uma sociedade (a americana) em que, num curso de Direito, é possível ouvir alunas a protestar angústia por o professor referir que um determinado artigo da lei foi violado? Em que as novas (e já não tão novas) gerações da elite parecem ter, como dizer, espíritos de porcelana, capazes de serem escaqueirados à mínima oportunidade de gritar “assédio moral”, violência verbal”, “tentativa de exclusão”, “humilhação pública”, etc., etc..

Vem isto a propósito da bofetada de Will Smith ao colega Chris Rock, na noite dos Óscares, por este se atrever a fazer uma piada com a cabeça rapada da sua mulher Jada Pinkett-Smith. Ah não! Se o corte fosse voluntário, talvez a piada se admitisse. Mas a senhora sofre de queda de cabelo, alopecia, o que transforma a piada numa agressão gratuita, numa ofensa monstruosa e imperdoável, e o seu autor num comediante abusivo, extraordinariamente abusivo e merecedor de um imediato ‘cancelamento’ social e para começar, de um bofetão. O mínimo dos mínimos, que se a piada fosse sobre a careca do Profeta, qualquer fiel poderia exigir a degola do tratante armado em engraçado.

Assim vai o mundo no Ocidente: Putin do lado de fora, a jihad de Will Smith no interior, a liberdade de expressão enxovalhada, incluindo a liberdade de gozar com o próximo, para mais com uma piada absolutamente trivial e inofensiva. O mais curioso é que, fosse outro o motivo da agressão, provavelmente o apaixonado “defensor da família” teria sido expulso da cerimónia. Mas, ao ser contra o ataque verbal abusivo dirigido à mulher, careca por doença, introduziu na festa a ambivalência e Will acabou por sair de lá com um Óscar.

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