A Bolívia, a manipulação da verdade e a encíclica papal

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 22 Outubro 2020
A Bolívia, a manipulação da verdade e a encíclica papal
  • Eduardo Luciano

 

 

Em Novembro de 2019, após eleições que reconduziram na presidência Evo Morales, uma fortíssima campanha orquestrada pela OEA e pelos Estados Unidos levaram a um golpe de estado que colocou no poder uma fantoche da política norte-americana.

As televisões abriam telejornais com manifestações em La Paz , sempre as do mesmo lado da contenda, ouviam supostos observadores independentes que garantiam que os resultados eleitorais não eram fiáveis.

O país foi atravessado por uma onda de violência e Evo Morales foi obrigado a abandonar a Bolívia. Tudo isto foi amplamente noticiado para convencer os incautos da justeza de um golpe que depôs um presidente legitimamente eleito.

Como disse na altura, tínhamos voltado ao tempo dos golpes dirigidos a partir das embaixadas americanas como aconteceu no Chile em 1973.

Passado um ano os golpistas, calculando mal a vontade do povo boliviano, realizaram eleições e o candidato do Movimento ao Socialismo, Luís Arce, obteve uma vitória retumbante conquistando a maioria em ambas as câmaras da Assembleia Legislativa Plurinacional.

Pensam os ouvintes que tal acontecimento mereceria da parte da comunicação social uma atenção redobrada tendo em conta a histeria em torno do golpe de Novembro de 2019. Pensam mal porque o silêncio é sepulcral.

Pensam os ouvintes que a diplomacia portuguesa tão lesta a compreender as razões do golpe, viria agora saudar os vencedores das eleições e a afirmação da democracia na Bolívia. Pensam mal porque a voz dono não se ouve contra os interesses deste.

Todos alinhadinhos do mesmo lado como bons meninos de coro.

Eu sei que não tem nada a ver mas ando a ler a encíclica papal fratelli tutti e a pensar que alguns católicos que conheço estão nos antípodas do pensamento nele transcrito.

Diz Jorge Bergogli: “O direito à propriedade privada só pode ser considerado como um direito natural secundário e derivado do princípio do destino universal dos bens criados, e isto tem consequências muito concretas que se devem refletir no funcionamento da sociedade. Mas acontece muitas vezes que os direitos secundários se sobrepõem aos prioritários e primordiais, deixando-os sem relevância prática.”

Mas não se fica por aqui na dessacralização da propriedade privada e afirma mesmo “O mercado, por si só, não resolve tudo, embora às vezes nos queiram fazer crer neste dogma de fé neoliberal. Trata-se dum pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas perante qualquer desafio que surja. O neoliberalismo reproduz-se sempre igual a si mesmo, recorrendo à mágica teoria do «derrame» ou do «gotejamento» – sem a nomear – como única via para resolver os problemas sociais.”

Parece que nada disto tem a ver com a Bolívia ou com os populismos emergentes, mas quando vemos a Bíblia como elemento decorativo de cenários montados para a promoção de figuras como Trump ou Bolsonaro não podemos deixar de nos questionar sobre as diversas hipocrisias e a distância que vai do pensamento e da palavra escrita à prática.

Continuo sem qualquer crença religiosa e discordo de muito do que se diz na encíclica papal, mas lá que algumas coisas deviam caber, no mínimo, no vocabulário de um qualquer social-democrata parece-me evidente.

Até para a semana

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