A carreira e o carreiro

Terça-feira, 20 Fevereiro 2018
A carreira e o carreiro

Andou por aí a notícia de que Passos Coelho deixaria a vida política para regressar não à vida empresarial, por onde terá circulado em tempos, mas para ingressar na vida académica, dando aulas em várias Universidades deste País e, quiçá, até estrangeiras quando aprender a falar inglês. O assunto toca em matérias que conheço e, como tal, sinto-me impelida a partilhar convosco algumas reflexões sobre a notícia, se esta for de facto uma notícia e não mais uma daquelas coisas que se fazem passar por elas.
É sabido que ser-se político de carreira é algo de mal visto por (quase) todos, para além de ser actividade inexistente na tabela CIRS das Finanças (aparece uma categoria de “Profissionais dependentes de nomeação oficial” mas vai-se a ver é coisa para Notários e Revisores Oficiais de Contas). Trata-se de uma carreira altamente precária por princípio, sujeita à expressão pelo voto da vontade popular. Mesmo quando os lugares políticos são de nomeação, são-no por parte dos que foram eleitos e a estes, como aos eleitores, devem também prestação de contas do seu desempenho. Como qualquer precário, findo o período de actividade é natural que se façam à vida. Alguns aproveitam o tempo de estadia na vida política para ir preparando esse futuro incerto, o que assim dito até não parece criticável. Mas também todos sabemos que há diferentes maneiras de o fazer, havendo quem se dedique de facto a uma carreira e a quem se dedique de facto a procurar carreiros para chegar a uma meta, nem sempre final. Eu cá teria preferido que Passos Coelho ficasse funcionário do Partido com quem manteve desde tenra idade uma relação seguramente muito benéfica para ambos, ou não teria chegado a PM.
Depois, a carreira universitária tem etapas, e requisitos para que se atinjam essas etapas, actualmente com uma avaliação regular por triénio e outras avaliações públicas ou concursais para se mudar de categoria. Muitas vezes nessas carreiras estão excelentes investigadores e docentes que articulam os requisitos exigidos pelas instituições de ensino superior da qual a extensão à comunidade é um deles, e que demonstra a necessidade de que os seus membros não se ensimesmem e se alheiem do mundo que os rodeia, para o qual devem contribuir, e que, sendo eles funcionários públicos, lhes paga o ordenado ao final do mês. Muitas vezes o que se ensina nas Universidades requer que se incorporem mais testemunhos e contributos de quem vive mais no mundo de fora do que de dentro da instituição e, por isso, se convidam indivíduos que cumprem essas funções. Não acho, pois, estranho que um ex-PM tenha muito para partilhar com vários alunos de cursos universitários, sobretudo os que lidam com questões de Política. Caberá aos devidamente certificados como responsáveis desses cursos, avaliar da importância de o receber ou não na sua equipa de docentes e investigadores. Isso também dirá mais da Universidade que convidar do que do convidado.
Também é verdade que muitos políticos iniciaram a sua vida profissional na Universidade, cumprindo com as regras que lhes foram permitindo fazer aí uma carreira que depois interromperam ou desviaram para a carreira política, por melhores ou piores atalhos…ou carreiros. Até conheço quem, entre dois períodos de exercício político de eleição, com alguns meses de intervalo para regressar ao que soe chamar-se alma mater (onde deve ter seguramente feito alguns seguidores que é o que faz quem dá aulas e consegue “fazer escola”), que lhe permitirão, com alguma sorte e astúcia (pronto, e mérito validado por eleições democráticas), perfazer 32 anos de serviço na carreira política e, ainda assim, continuar a dizer que é docente de uma Universidade. Isto é tudo muito discutível e, por isso, discuta-se. Até para a semana.

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