A Champions

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 22 Junho 2020
A Champions
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Confesso que não sou dada a futebóis.
Confesso que me chateia mesmo ser bombardeada a toda a hora por notícias de futebol, por novelas de assembleias gerais de clubes e tricas de dirigentes, entrevistas com treinadores e bitaites de comentadores, para não falar das deploráveis cenas de corrupção de que se ouve falar.

Dito isto acrescento que, nada tenho contra o futebol em si, nem contra quem joga ou gosta de futebol e que nada desta apreciação tem a ver com o que penso sobre a realização da Final da Champions League da UEFA em Lisboa.

A coisa começa a complicar-se é quando o futebol mexe com a nossa vida e a nossa segurança colectivas. Ou seja, quando o futebol comanda a vida do país.

Depois de 3 meses a ferro e fogo por causa da pandemia de Covid 19, a contar todos os dias o número de infectados e de mortos, quando centenas de milhares de trabalhadores perderam o emprego ou 1/3 do seu salário e há muita gente a passar mal, quando os nossos velhos estão ainda prisioneiros em lares, vendo à distancia apenas 1 familiar meia hora por semana, os mais altos responsáveis da Nação vêm ufanos anunciar que a Final da Champions League é em Lisboa. Pronto, somos os maiores em Agosto teremos cá a final da Champions!

Mas afinal o que é isto? Que pretende o Governo? – sim porque tem de haver acordo das autoridades nacionais – E que valores se sobrepõem ao risco de exposição da população portuguesa a contágios e, portanto, à saúde pública?

Quem decidiu deve ter achado que isto será bom para o turismo e para a imagem de Portugal, mas ponderou os impactos na saúde da população e os custos sociais e económicos que envolve a decisão se a coisa correr menos bem ou mesmo a possibilidade de a situação sanitária no país evoluir negativamente até lá?

Não se sabem detalhes, não se sabe se haverá publico nas bancadas ou não mas, mesmo não havendo público, quantas pessoas viajarão para cá entre jogadores, equipas técnicas, televisões e jornalistas. Virão equipas de informação de todo o mundo que se instalarão nos hotéis e circularão pela cidade.

Poderão contaminar mas poderão também ser contaminados. Já não falo apenas nos jogadores que terão certamente uma vigilância médica mais apertada, mas de jornalistas, gente das televisões. Se algum ou alguns forem contaminados e adoecerem cá acha António Costa que as notícias não serão negativas para a imagem do país e não afectarão a economia?

Se houver público a assistir aos jogos será, então, a irresponsabilidade total. Estamos em finais de Junho e a situação na região de Lisboa está longe de estar controlada.

Acreditamos que somos mais espertos que os outros países ou move-nos uma fezada imensa na sorte?

Facto é que habitualmente vários países europeus disputam com unhas e dentes a realização da final da Champions e que, assim do pé para a mão, Lisboa ter sido escolhida poderá não ser o resultado do “milagre português” na contenção do vírus, que sabemos ser neste momento uma mistificação.

Não terá antes sido o caso de os outros países serem prudentes e não terem querido arriscar ser confrontados com a imprevisibilidade da evolução próxima da pandemia nem com os riscos de algum dos intervenientes adoecer no seu território?

E para terminar não posso deixar de repudiar as palavras de António Costa quando anunciou a realização desta final em Portugal dizendo que era um prémio para os profissionais da saúde, como se isso pagasse todo o esforço e sacrifício que lhes foi pedido.

O reconhecimento de que estes profissionais necessitam não pode ser feito de palavras, tem de ser traduzido em melhor carreira, melhores salários, subsídio de risco e melhores condições de trabalho. Isso sim, Sr 1º Ministro, será reconhecer o seu papel durante esta pandemia e como são imprescindíveis para o país.

Até para a semana!

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