A chuva é uma seca

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 19 Outubro 2023
A chuva é uma seca
  • Nuno do Ó

Estão chegando os frios. Mais um Inverno que se aproxima, de acordo com o que costuma acontecer todos os Outonos, quando por fim e mais uma vez, também este se dá por acabado. A chuva reapareceu em força e lá se foi a seca. Ou talvez não.
Talvez não porque, como alguns dizem, por via das alterações climáticas, a seca veio para ficar. Aparentemente, a verdade dos factos, como se vê, tenta desmentir a realidade e insiste em contrariar a seca. Se calhar, é o que acontece todos os anos, mais ou menos. Chuvas de Outono, que acontecem, nalguns anos. Noutros, não. Quase sempre torrenciais, repentinas e sem aviso. Outras vezes, as chuvas vêm no Inverno, ou até na Primavera. Tem anos em que mal aparecem.
Acima de tudo, insistem em não vir a horas certas, nem no tempo nem na quantidade que nos daria mais jeito. Ou antecipam a época das vindimas e baixam o grau e a qualidade do vinho ou vêm demasiado tarde e baixam o volume de produção. Quando não é granizo, que aí estraga mesmo tudo.
Acima de tudo, a natureza insiste em não andar nas horas certas que gostaríamos de determinar. Os telejornais deixam de falar da seca e dos incêndios e passam a falar de inundações e dos prejuízos das chuvas, sendo que, em qualquer caso, as notícias são sempre as desgraças provocadas por ambas, a seu tempo. Não parece haver descanso e pelo que se vai ouvindo, estamos sempre em prejuízo com a natureza, que prossegue, impassível, perante este permanente alarde humano.
É um clamor geral e não falo apenas da comunicação social tabloide que vive desse alarme. Falo de todos no geral, dos que insistem em sublinhar esta indisciplina da natureza. Nada parece apontar para a falta de planeamento, para o inexistente ordenamento de território, para o urbanismo caótico, para a incúria e para o erro humano, que não compreende o seu lugar no mundo, e nele, parece não saber viver, muito menos, com ele conviver.
Vamo-nos deixando contaminar para uma sociedade histérica, dedicada ao escândalo, ao alerta e ao breaking news, levada pelo medo e pela ignorância. Sempre em busca do interesse individual, o mesmo que nos leva à indiferença pelo outro, à competição e à incompreensão do mundo e do coletivo que somos. Por isso não percebemos que o interesse individual, não raras vezes, ignora o interesse do coletivo, de todos nós.
Por isso mesmo, as chuvas, do que já se vai ouvindo, só parecem ter voltado para chatear e para desgraçar os que agora se vão sentindo afetados. Por um estranho efeito de amnésia, já ninguém se parece lembrar que a semana passada ainda suspirávamos por ela, aguardando que a mesma acabasse com a seca. Parecemos todos esquecidos dos benefícios da água que nos cai dos céus e que constituem a base da vida. Também já esquecemos a seca.
Talvez porque o alarmismo vai sendo a cola que nos mantém agarrados à ordem pública, por mais insana e irracional que a mesma seja. Com as alterações climáticas a justificar uma boa parte das desgraças que vão acontecendo, refiro-me particularmente às relacionadas com o clima, claro está, ninguém põe em causa o miserável nível de urbanismo, de construção urbana e muito menos, a miséria de 1,7 milhões de portugueses que vivem no limiar da pobreza, a maioria em condições inaceitáveis de habitação e de outras, de acordo com os mais recentes dados, que nos mantêm desde há muito neste notável rácio.
Agora é a chuva. Não tardará a haver um coro de vozes a clamar por ajuda, a reclamar com a natureza, com a sua falta de oportunidade. Todos dirão que não há memória de qualquer desgraça que irá acontecer e todos culparão a natureza. Ou as alterações climáticas, que é quase o mesmo, que é assim uma referência negativa para uma coisa que está acontecer, de que parece que somos culpados, todos em geral e ninguém no particular.
O que sabemos, desde já, é que a seca irá voltar, assim que as chuvas pararem. Estou capaz de apostar que a seca voltará a aparecer lá para o final do inverno, em finais de fevereiro. Particularmente porque nessa altura já estaremos a esvaziar as barragens e a gastar a água que iremos agora acumular. Com exceção das barragens públicas, que são obrigadas a manter uma cota mínima de reservas a partir do qual os regadios são proibidos. Todas as restantes continuarão abertas, a regar tudo o que alguns decidirem, arrozais, milheirais ou campos de golfe. E lá se vai a ideia de que o liberalismo resolve tudo. Não sendo o Estado, nem o Alqueva restaria com água.
E a seca lá voltará. Seria agora a altura ideal para falar nela, para pensarmos na melhor maneira de usarmos a água que agora nos sobra, ou melhor, na melhor maneira de a não gastarmos em vão.
E agradecer o tempo da chuva, que antecederá inevitavelmente, o tempo do estio. Fica o alerta vermelho!
Até para a semana.

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