A coerência da incoerência

Crónica de Opinião
Quarta-feira, 08 Fevereiro 2023
A coerência da incoerência
  • José Policarpo

O bloco de esquerda e o partido comunista português viabilizaram quatro orçamentos do Estado propostos pelo partido socialista, entre 2016 e 2020. A famigerada gerigonça fez caminho e foi feliz atenta a duração da relação, quatro anos em política são, de facto, uma eternidade.
Durante 2016 a 2020, nestes quatro anos, houve cumplicidade e concordância na gestão política e financeira do país entre os dois partidos de extrema-esquerda e o partido socialista. Não só foram cúmplices em todas as decisões tomadas pelo governo, como, também, foram autores morais em parte delas. Por muito que se esforcem no presente em distanciarem-se do partido socialista, o país que atualmente somos em muito se deve a eles.
O país tem quatro milhões de pobres, setecentas mil pessoas em “pobreza energética severa”, um dos países da união europeia com o menor número de pessoas com o secundário e/ou ensino superior, tudo isto representa uma realidade muito pouco favorável para vencer no mundo cada vez mais global e competitivo.
Ora, não entendo os queixumes e os azedumes propalados pelos líderes dos partidos de esquerda no apoio aos grevistas da educação, da saúde e da justiça, quando eles nada ou pouco fizeram para dignificar as carreiras do pessoal docente, dos técnicos da saúde e dos funcionários dos tribunais.
A paz social foi aparente no tempo da gerigonça, porque na realidade sempre houve mais do que motivos para a insatisfação destes funcionários públicos. As lágrimas vertidas da extrema-esquerda são de crocodilo. Haja mais coerência e menos desfaçatez, porque não somos todos tontos.
Soubemos ontem que o Supremo Tribunal Administrativo deu razão ao partido comunista na questão levada a juízo em razão da ilegalidade verificada na constituição do executivo da União das Freguesias do Bacelo e Senhora da Saúde. No caso da União das Freguesias da Malagueira e Horta da Figueiras já havia decisão judicial definitiva.
As ilegalidades na constituição dos executivos, nos dois casos, resultaram da violação do princípio da representatividade. A atual constituição dos dois executivos não espelha a vontade escrutinada nas urnas. Em ambos os casos houve maioria relativa do partido socialista, por isso os eleitos não podem ser todos deste partido.
Em suma, a legalidade foi reposta e espera-se que os responsáveis políticos por esta situação se retratem publicamente.

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