A depilação do pirilampo, as derivas securitárias e a ascensão dos fascismos

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 21 Junho 2018
A depilação do pirilampo, as derivas securitárias e a ascensão dos fascismos
  • Eduardo Luciano

 

 

Estamos cercados de normas e regras que pretendem proteger-nos de tudo e de mais alguma coisa.

A palavra segurança assume uma centralidade crescente nos discursos do dia-a-dia e torna-se cada vez mais da pedra de toque das narrativas construídas em torno de todos os medos, dos ancestrais aos de última geração.

Aproveitando esta cavalgada, que submete a liberdade ao férreo controlo da segurança, forças e movimentos fascistas de diversas matizes vão alcandorando-se a lugares de poder, legitimadas pelo voto popular com a promessa de excluir tudo que se desconhece, o que é diferente ou pode constituir uma ameaça real ou imaginária.

Dir-me-ão que o fanatismo em torno da alimentação que nos promete viver para sempre, da utilização de protecções para simples brincadeiras ou do tratamento dos fumadores como párias da sociedade, não tem nada a ver com a política defendida pelo ministro do interior do governo italiano, quando quer obter registo de cidadãos classificando-os por etnia (está a falar dos ciganos, mas a seguir serão todos os outros em função do medo que estiver na moda).

Na minha opinião, a base é a mesma. O medo. De tudo, ou de quase tudo.

Ouvir o discurso de Trump a justificar a separação das crianças dos adultos em quem confiam e escutar as palmas da audiência é algo que enoja qualquer um, pelo que tem de apelo a regresso a comportamentos colectivos que associamos a regimes como o da Alemanha nazi ou da Itália fascista.

Na base está sempre o medo. O medo que imigrantes roubem os empregos, o medo que a “pureza étnica” seja corrompida, o medo que a criminalidade aumente, o medo que os netos venham a ter apelidos como Lopez ou Suarez.

Alimentar o medo é o seguro de vida mais eficaz para um exercício do poder assente no controlo, no princípio de que só é permitido o que não é proibido, no justicialismo, no julgamento moral e, no final da estrada, com a supressão da liberdade em nome do valor elevado a supremo. O valor da segurança.

O mais dramático é que tudo isto parece ser feito para nosso bem. Para garantir que tudo o que nos faz mal é erradicado das nossas vidas, que as supostas ameaças exteriores ficarão longe e que morreremos cheios de saúde se comermos os iogurtes antes do fim do prazo.

Curiosamente, quando comecei esta crónica era suposto falar da nova imagem do pirilampo mágico, obrigado a depilar-se e a perder os olhos salientes para proteger as nossas crianças de engolirem peças soltas ou de ficarem alérgicas ao pó acumulado na simpática criatura.

O que é que isto tem a ver com a deriva securitária e a ascensão dos fascismos por esse mundo fora? Tirando a base, quase nada.

Já agora, comprem muitos Pirilampos porque o trabalho das CERCI deste país merece e necessita. Como acto de revolta cubram-nos de pelos, colem dois olhinhos e coloquem-nos nos sítios do costume.

Até para a semana