A detenção de Vieira

Nota à la Minuta
Quinta-feira, 08 Julho 2021
A detenção de Vieira
  • Alberto Magalhães

 

 

A dupla Rosário Teixeira e Carlos Alexandre especializou-se em aberturas de processo bombásticas, com detenção de homens poderosos caídos em desgraça, sob pretexto de assim ficarem impedidos de corromper eventuais provas. O argumento seria bom se os suspeitos fossem apanhados de surpresa. Não aprecio a táctica, mais útil para ter fortes coberturas televisivas e primeiras páginas de jornais, do que para ajudar na descoberta da verdade.

Mas pior é o hábito de, depois da detenção, deixar os homens poderosos caídos em desgraça a marinar na choça, fazê-los suar uma noite ou duas, antes de os confrontar com os indícios, as provas, e as interrogações. Mesmo sendo a táctica eficaz, o que eu duvido, parece mais conforme à satisfação dos desejos populares de castigo imediato para alguém considerado, à partida, culpado, do que ao nosso ideal de justiça ponderada e, tanto quanto possível, justa. Da impunidade dos poderosos não devemos passar, parece-me, ao abate precipitado dos mesmos, segundo o modelo já experimentado e abandonado do Terror na Revolução Francesa.

A detenção de Luís Filipe Vieira, além de me suscitar estas reflexões, reaviva—me a sensação de que, não sendo a primeira do género, muita gente ainda teve dificuldade em acreditar nos indícios que a tornavam possível e até provável. Os políticos, de vários quadrantes, que aceitaram estar na sua Comissão de Honra eleitoral, e os sócios que o reelegeram por mais de 60% dos votos, percebem agora a imprudência?

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