A direita no governo

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 04 Abril 2024
A direita no governo
  • Nuno do Ó

E pronto. Depois de Marcelo Rebelo de Sousa ter mais uma vez dissolvido a Assembleia da República, cá temos um novo governo, de direita, novos 230 deputados, a maioria deles repetidos, para uma nova legislatura, que tendo em conta os sons que já ecoam de S. Bento, não auguram nada de bom para o nosso futuro coletivo, o que, no que me diz respeito, não me surpreende.
O nosso Presidente da República, exercendo com a sua profícua determinação aquele importante cargo, arrisca-se a tornar-se o campeão das dissoluções e aparentemente, da criação de novos governos, que cada vez mais parecem incapazes de resolver os problemas do país. A vontade férrea do Presidente parece ir resultando em soluções cada vez piores e ao invés de promover a estabilidade governativa e institucional que parecia pretender, o que se vê é o contrário, cada vez mais instabilizados pelo crescente desespero das populações, cada vez mais distantes de ver as suas dificuldades amenizadas, no emprego, na habitação, na dificuldade cada vez maior de chegar ao fim do mês.
A não ser, claro está, que a verdadeira razão do trabalho de Marcelo, fosse criar as condições necessárias para voltar a colocar a direita no poder, arredada que parecia estar do mesmo, depois do período desgastante da Troika e da austeridade forçada e reforçada, que deu corpo à situação cada vez mais desesperada em que nos encontramos. Se for isso, terá conseguido. A direita voltou ao poder.
Para isso, Marcelo já dissolveu a Assembleia da República duas vezes, se não contarmos a Madeira. Em 50 anos de democracia, esta foi a nona vez que a Assembleia da República foi dissolvida. Marcelo, com o andar da carruagem, arrisca-se a tornar-se recordista de dissoluções, se a direita não se governar ou se as pessoas voltarem a sentir e a lembrar-se de como era. E assim, tudo parece querer voltar para trás, com o prejuízo certo dos dois milhões de portugueses que não conseguem sair do limiar da pobreza.
Senão vejamos. O Instituto Nacional de Estatística tinha anunciado um excedente orçamental, nunca antes visto em democracia, o que parecia confirmar, ou o aumento extraordinário da nossa riqueza ou a falta de vontade do governo cessante em responder aos problemas do país. Será mais esta segunda hipótese, pelo que será precipitado o esfregar de mãos do novo governo de direita, que se preparava para deitar a mão ao bolo.
Parece certo que este excedente resultará antes da conjuntura e das elevadas taxas de juro, do que da subida real da riqueza do país. Por isso mesmo, não resultou no desagravamento dos impostos ou do custo de vida da generalidade dos portugueses trabalhadores que para ele contribuíram, muito pelo contrário. Este excedente representa sim, o fundamental das políticas dos governos do PS, cheios de boas intenções, mas francamente mais interessados nos privilégios e benefícios do capital privado. Representa sim, a falta de investimento público, a política de cativação dos dinheiros públicos, que resultou na sobejamente badalada degradação dos serviços públicos, mais fazendo lembrar o tempo da outra senhora, com um Estado rico e um povo pobre, o que na verdade, é o que a maioria dos ignorantes parecem desejar, tal como nas primeiras Repúblicas que levaram à ditadura e à sua miséria, para quem ainda se quer lembrar…
E foi isso mesmo, em grande medida, que levou à primeira dissolução da Assembleia da República por Marcelo Rebelo de Sousa, quando a verdadeira esquerda quis e não conseguiu, evitar este caminho do PS, ansioso que ele estava por uma maioria absoluta, seguro de que a obteria se culpasse as vozes à sua esquerda e que deu o resultado que deu. O anterior governo, contentíssimo por poder anunciar a redução do rácio da dívida pública para 99,1% do PIB, tem-se entretido a propagar esta ideia enganadora, na esperança do povo lhes dar mais votos, o que resultou no que resultou. E Marcelo lá conseguiu finalmente, com a inestimável ajuda do PS, voltar a ter a direita no poder.
E pronto. Sem o bolo excendentário, as reivindicações de polícias, professores, médicos e de quase todas as classes profissionais, perante o exponencial aumento do custo de vida, terão que ser arrecadadas no orçamento que todos pagamos e que ficam assim mais comprometidas.
E voltamos à questão. De onde é que ele vai sair, com a direita no poder? Se já antes era difícil, como é que o liberalismo de direita o vai conseguir? Bom, já temos ex-ministros comentadores a defender o regresso das parcerias público-privadas na saúde, para que todos voltemos a pagar o benefício de apenas alguns. O mesmo para o ensino. Os bancos não irão ser incomodados, os negócios privados muito menos. A habitação será para quem puder, tal como o emprego. A emigração voltará à ordem do dia, se é que não estava já. Os imigrantes que cá chegarão, tal como nós, à procura de melhor vida, estarão sobre ataque. A verdadeira esquerda, ficará cada vez mais silenciada, pelos cada vez mais que não se querem maçar a ouvir e que continuam a caminhar para o anunciado abismo. As guerras não terão vozes contra, com a paz cada vez mais longe, como já se vê pelas crescentes barbaridades a que vamos assistindo. A extrema-direita, afastada do poder pelos mais púdicos, continuará a poder afirmar que faria diferente, a gritar e a provocar, sabendo que não terá que provar o contrário e que as cadeiras que têm já são suficientemente aconchegantes. Vamos continuar a gastar dinheiro em armas e nas empresas de armas e a prepararmo-nos para a guerra e para a destruição. Já falamos no regresso do serviço militar obrigatório, a carne para canhão que parecerá a salvação de alguns, como antigamente, com rendimento fixo, pela arte de melhor aniquilar o outro. E etecetera… tudo semelhante ao que já vimos…
Mas afinal, de onde é que ele vai sair, quem é que irá pagar o desejado e propagado avanço pela direita? Para quem não sabe, para quem ainda não percebeu a ideia de direita, aqui fica. Quem vai pagar é o mexilhão.

Até para a semana.

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