A estupefacção e a estupidificação

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 10 Janeiro 2019
A estupefacção e a estupidificação
  • Eduardo Luciano

 

 

Era perfeitamente previsível que 2019 começasse como acabou o ano anterior. Ainda assim não esperava que o ambiente se agravasse tanto em apenas três semanas, que a escalada de promoção de ideais fascistas e de figuras tristes a eles associadas fosse de tal forma incrementada que, de repente, até os mais condescendentes se assustaram e vieram produzir opinião sobre o assunto.

Parece ter começado a corrida entre os canais de televisão para ver quem desce mais baixo na qualidade da desinformação, na promoção da mediocridade e na simplificação do discurso até à mais completa imbecilização do receptor.

Depois é tudo mais fácil de aceitar, incluindo a presença em programas televisivos de defensores de ideais cuja promoção está expressamente proibida na Constituição de 1976, justificada por um inenarrável comunicado onde se defende o confronto de opiniões como se fossem discutíveis questões como a supremacia racial, a supressão de liberdades, a discriminação em função do género ou da orientação sexual.

Como se tudo isto não fosse já suficientemente mau, ainda temos um Presidente da República que ao participar em programas de televisão de gosto duvidoso dá o patrocínio institucional a uma certa forma de comunicar. Provavelmente porque não se esqueceu que foi através da sua construção como figura pop do comentário televisivo, durante anos, que chegou à vitória eleitoral que o levou até Belém.

O homem dos afectos descobriu agora, entre uns telefonemas em directo e uns abraços devidamente registados, que é um defensor da abolição das propinas no ensino superior.

Quando a 28 de Maio de 1992 foi debatida a proposta do governo PSD que tornou possível um aumento das propinas onde estava o então destacado militante desse partido que agora ocupa o mais alto cargo da nação?

Quando o PCP propôs a abolição das propinas e os estudantes de diversas academias encetaram acções de luta com esse objectivo, qual era a opinião do homem que veio mais tarde a ocupar o lugar de presidente do PSD?

Quando o PCP argumentava que o aumento das propinas era desconforme com os princípios constitucionais, o insigne professor de direito tomou posição pública sobre o assunto?

São perguntas de retórica, como seriam outras que poderia fazer aos que agora agarram na bandeira, ignorando que quando a luta começou nem sequer existiam.

O ano começa com estupefacção e com o reforço da tentativa da estupidificação massiva. Começa com o reforço da necessidade de regresso aos combates mais básicos e onde é precisa mais coragem e firmeza.

Até para a semana