A eutanásia num país perfeito

Nota à la Minuta
Sexta-feira, 14 Fevereiro 2020
A eutanásia num país perfeito
  • Alberto Magalhães

 

 

Imagine-se um país próximo da perfeição, com cuidados continuados e paliativos admiráveis e acessíveis. Imagine-se um povo perfeito, pondo em prática o ideal mente sã em corpo são, capaz de sobrepor às emoções a razão, gente assertiva, apta para resistir a pressões familiares e sociais, insensível a modas insensatas e argumentos falaciosos. Nesse mítico país, talvez eu considerasse a possibilidade de apoiar uma lei do suicídio assistido e da eutanásia, desde que muito redundante em termos de garantias, como dizem ser os projectos-lei em discussão na AR.

Veja-se a Holanda. Começou cheia de restrições e cautelas, mas já discutem (e quem sabe aprovem) a distribuição, a todos os maiores de 70 anos, de uma pílula da morte, para terem assim ao dispor, sempre à mão, quando se sentirem isolados ou, pelo contrário, quando se sentirem um peso para a sua família, um instrumento farmacologicamente terminal, a que poderíamos chamar a cicuta dos nossos dias.

A Holanda, onde se diz que os cuidados de saúde são avançadíssimos, mas deixou morrer à fome a jovem Noa, de 17 anos de idade, que depois de abusada sexualmente por duas vezes, sentia o seu corpo tão sujo que preferiu deixar de comer. Morreu numa clínica especializada em eutanásia, legalmente autorizada e com consentimento dos pais, por se considerar que o seu sofrimento psicológico era “insuportável”.

Não lhes passou pela cabeça que a resposta psiquiátrica e psicoterapêutica teria de ser muito melhorada e que o mito de que a mulher violada, se for séria, tem necessariamente de ficar “marcada” para toda a vida, é incapacitante e deve ser combatido.

Como é que, na Holanda, se escorregou para isto? Como será por cá?