A fábrica de pecadores

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 06 Outubro 2021
A fábrica de pecadores
  • Alberto Magalhães

O relatório da comissão que investigou os abusos sexuais, praticados no seio da igreja católica francesa, impressiona. Com base nas histórias de 6500 pessoas que usaram uma linha de atendimento, nos depoimentos orais e escritos de 2700 vítimas e nos arquivos da igreja, conclui que dois mil sacerdotes e outros membros do clero, entre 1950 e 2020, terão abusado de 200 mil menores. Acrescentem-se mil catequistas e outros leigos e o número total de vítimas ascenderá a 300 mil. Curiosamente, sendo 80% de rapazes, invertendo assim as habituais estatísticas ‘laicas’ que costumam apontar, em vários países, para a proporção inversa. Provavelmente, por não serem de países católicos ou por deixarem de fora seminários e sacristias.

Claro que a tradição do clero português é bem diferente, como o padre Amaro do nosso Eça e os inúmeros “afilhados do senhor padre”, espalhados pelas aldeias de Portugal, bem demonstram. Rapazinhos, talvez em seminários como o da Manhã Submersa de Vergílio Ferreira, mas poucos.

Daí ser compreensível que, ao contrário dos EUA, da Irlanda, da Polónia, da Austrália, e agora da França, onde os casos se contam por dezenas ou centenas de milhares, em Portugal, que me lembre… ah, sim foi condenado o padre Frederico, da Madeira, mas esse era brasileiro. Tendo o Papa Francisco ordenado a criação de comissões, em todas as dioceses, para lidar com possíveis situações de abuso, o jornal Público, até Maio deste ano, apenas desencantou – e longe de Évora – quatro denúncias, das quais apenas uma estava em investigação. Em resumo, aqui, não se passa nada.

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