A falácia da escalada das drogas

Nota à la Minuta
Sexta-feira, 15 Maio 2020
A falácia da escalada das drogas
  • Alberto Magalhães

 

 

Na segunda metade dos anos 70 do século passado, vivia-se então na ressaca do 25 de Abril e da descolonização – com a chegada a Portugal de centenas de milhares de refugiados portugueses, a que se resolveu dar o nome de “retornados das ex-colónias” – houve uma explosão do consumo de cannabis no país.

Ora, se antes da queda do Estado Novo, a política quanto às drogas ilegais era explicada em centenas de cartazes, Avenida da Liberdade acima, com uma caveira e o lema “Droga-Loucura-Morte”, com os primeiros governos constitucionais, a Droga continuou a ser um papão indistinto, onde cabiam todas as drogas, excepto as tradicionais, legais e mais difundidas, o álcool e o tabaco. Por acaso, as que mais matavam, e ainda matam, em Portugal.

Para combater as veleidades de muitos que defendiam a despenalização – e até a legalização – da cannabis, surgiu a pseudo-teoria científica da “escalada”, que dizia que das “drogas leves” se subia, invariavelmente, para as “duras” (como as anfetaminas, a cocaína ou a heroína). Argumentavam os “cientistas” que todos os dependentes da heroína tinham começado por fumar erva, liamba, suruma, maconha, marijuana ou haxixe (alguns dos nomes com que se disfarçava o demónio feito droga). E era uma verdade comprovada.

O truque estava em esconder que, sendo verdade que quase todos os (estimava-se na altura) 2 ou 3 mil dependentes da heroína tinham começado por fumar cannabis, o contrário estava longe de ser verdadeiro: a esmagadora maioria dos consumidores de cannabis (estimados na altura em 300 mil) nunca escalariam para as “drogas duras”. Se ouviu a Nota à la Minuta de ontem, perceberá melhor este vício de pensamento.

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