A fome no mundo

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 21 Março 2024
A fome no mundo
  • Nuno do Ó

A mais recente edição do relatório da FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, apresentado recentemente em Roma, indica que objetivo de acabar com a fome e com todas as formas de desnutrição no mundo não será mais alcançado.
Este alarmante relatório, sem surpresa, sublinha, em grande medida, a falência das sociedades humanas, particularmente se juntarmos à fome e à miséria, a lenta mas segura destruição do planeta e dos seus recursos naturais, explorados até ao limite pelo homem, sublinhando assim o total falhanço das políticas capitalistas e liberais que têm sido aplicadas no mundo, com visíveis consequências na vida do homem.
E não haverá forma de o desmentir. Tudo isto se passa num mundo dominado quase exclusivamente pelo capitalismo, com os resultados visíveis decorrentes da aplicação da lei do mais forte e do mercado livre, que normalmente e também sem surpresa, favorece o mais forte.
Este relatório, profundamente demolidor, refere que à presente data, em pleno séc. XXI, mais de 700 milhões de pessoas passam fome em todo o mundo, afirmação que até custa a escrever ou a ler, tal é o soco no estômago e a vergonha que provoca, apenas a alguns, é claro. Para se ter uma ideia, o número de pessoas que passam fome no mundo, a esta hora, são mais do que toda a população junta da Europa, da América do Norte e da Rússia, como se todo o chamado mundo ocidental estivesse à fome. Já a insegurança alimentar afeta cerca de 2,5 biliões de pessoas, praticamente um terço dos habitantes da Terra.
Ao contrário do que alguns gostam de dizer, esta sim, é uma verdadeira vergonha para toda a humanidade, num mundo capaz de enviar naves a Marte mas incapaz de dar condições de vida mínimas a um terço da sua população no planeta.
É impossível desligar esta situação da loucura do capitalismo que rege as economias nos países onde se verificam estas gritantes desigualdades, em sintonia com as grandes economias ocidentais, que engordam à custa desta forma generalizada de exploração e que continuam a não permitir que os outros povos se desenvolvam, numa versão neocolonialista, mais refinada, onde os ricos do mundo, tal como antes, não param de explorar tudo o que podem, dominando territórios alheios, alterando governos a gosto, nem que para isso, como se vê, seja necessário recorrer à guerra, destruindo todas as possibilidades de desenvolvimento dos países e engordando ainda mais, os imensamente ricos e as indústrias de armas.
Assistimos impávidos e serenos à crescente desigualdade social no mundo, mesmo dentro da Europa, mesmo em Portugal, aqui mesmo, com 2 milhões de portugueses presos no limiar da pobreza. A pressão capitalista, imparável, não deverá ter outro resultado senão o agravamento da situação, como aliás se espera pelo resultado das mais recentes eleições em Portugal e também na Europa, nomeadamente para os mais desfavorecidos, para os oprimidos, que acabam ainda a eleger os seus opressores, mais suscetíveis que são de se deixarem enganar pela direita populista.
O aumento da aperto do capitalismo começa já atingir as pessoas que trabalham, porque simplesmente, perante o negócio em que se tornou a habitação, qualquer casal, especialmente que tenha filhos e que, a trabalhar, aufira o ordenado mínimo nacional, não conseguirá arrendar uma casa, não conseguirá que o banco lhe empreste dinheiro para comprar uma casa e arrisca-se a ir parar à rua, a perder a guarda dos filhos, mesmo com casas vazias por todo o lado, à espera de rendimento, simplesmente porque não é suficiente, não chega.
Porque o capitalismo não tem essas preocupações. Porque os governos que o têm sustentado e que continuarão a fazê-lo, como se adivinha, não irão adotar medidas nenhumas que resolvam estes problemas, enquanto a pobreza e a fome alastram, mesmo aqui, no seio das sociedades mais ricas do mundo.
Para amenizar isto tudo, bastaria que o governo português aplicasse algumas das sugestões que lhe são feitas e que já rejeitou, sem qualquer razão válida que o justifique. Bastaria baixar as margens de lucro do banco do Estado, a Caixa Geral de Depósitos, o que levaria o sistema bancário a reagir na mesma direção. Bastaria que o governo desse a cobertura necessária para a aprovação de empréstimos bancários aos mais desfavorecidos, sobre a obrigação de aplicação de capitais próprios, que essas pessoas não têm, naturalmente, se pouco sobra para o resto. Bastaria que se emitisse legislação apenas a limitar os negócios na habitação, os alojamentos turísticos, sem o que, cada vez mais, haverá pessoas com emprego, cada vez mais próximas da rua.
Já muitos dos nossos governantes reafirmaram que não tomariam essas medidas, porque a disposição acionista dos bancos a tal desaconselham, dizem. A vassalagem aos grandes capitais revela-se a todo o momento e assim, mesmo com uma subida generalizada dos salários e dos rendimentos mínimos, na proporção dos lucros abjetos que vamos dando às grandes empresas e aos capitalistas, perante a sua sofreguidão, poucas hipóteses deixam para dar um rumo melhor à vida dos que mais sofrem, aqui e no resto do mundo.
Em todo o caso, mesmo com essas medidas, apenas se conseguiria estancar o triste cenário que se agrava a cada dia, alimentada com a ignorância de uns e o populismo de outros. Porque a bem dizer, esta é a verdadeira face do capitalismo e enquanto a humanidade caminhar por esta via, a fome e a miséria sempre encontrarão o seu caminho facilitado, tal como a ordinária riqueza dos tais 1% mais ricos… um dia evoluiremos em direção a uma sociedade justa e igualitária, assim que as mentes e os povos se libertarem, finalmente.

Até para a semana.

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com