A França e o drama de não haver escolha

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 04 Maio 2017
A França e o drama de não haver escolha
  • Eduardo Luciano

 

 

A propósito da segunda volta das presidenciais francesas há quem se recuse a discutir a questão da ausência de escolha. Tudo é simplificado de uma forma atroz. Se de um lado está a fascista Le Pen então é preciso votar no outro lado, seja ele qual for. Não vale sequer a pena colocar a questão de como se chegou aqui, a este pântano onde a escolha é a mesma fatia do pão, com ou sem manteiga.

Estes simplificadores sentem-se confortáveis com a escolha do menos mau, porque ambos pertencem à mesma área política, ambos estão do mesmo lado ideológico da fronteira e como tal com mais ou menos tristeza lá vão votar para impedir a chegada ao poder do fascismo sem máscara.

Para a massa imensa que não se sente representada por nenhum dos candidatos a coisa assume contornos de uma violência atroz. Imaginem as pessoas da esquerda consequente em Portugal a terem de escolher entre o “centrista” Paulo Portas e um qualquer dirigente de um qualquer grupo de neo nazis.

Não faço ideia o que faria se fosse cidadão francês, nem é isso que está em causa. Sei que jamais faria fosse o que fosse que facilitasse a chegada ao poder de Le Pen, mas seria capaz de apelar ao voto em Macron ou ficar-me-ia pelo acto de votar?

Lembro-me do que foi o drama pessoal para muitos democratas o facto de ter de escolher, nas eleições presidenciais de 1986, entre o dirigente do único partido que votou contra a constituição e aquele que muitos consideraram como o pai da contra revolução.

Tudo foi explicado e tornado a explicar. Que a dinâmica revanchista da campanha de Freitas do Amaral iria resultar num perigo maior para a democracia, que corríamos o risco de voltarmos aos tempos em que assaltavam sedes do PCP e os atentados terroristas aconteciam diariamente. O PCP convocou um congresso extraordinário para decidir o que fazer perante a escolha que se perfilava. Ainda assim vi muita gente de lágrimas nos olhos na hora de votar, gente que teve de tapar a fotografia do candidato em que votava para suavizar a dor de uma escolha que não era a sua.

Compreendo por isso o drama de muitos eleitores franceses nesta hora tão difícil em que a escolha não é entre dois caminhos mas entre duas formas de continuar o mesmo caminho, não sendo irrelevante o carácter abertamente xenófobo e racista da candidata da Frente Nacional.

Não tenho dúvidas que é necessário travar Le Pen e que isso passa por eleger Macron. O que me preocupa é que a barricada vai recuando tanto, mas tanto, que um dia destes os franceses estão a escolher entre a filha e a neta do velho fascista.

Quem diria aos franceses que ainda chegaria o tempo de uma decisão ainda mais surreal do que aquela que tiveram de tomar quando a opção era entre Chirac e Jean Marie Le Pen.

Como foi possível chegar aqui? Como foi possível chegar ao ponto dos mais pobres se sentirem representados pelos seus verdugos? Como é possível ouvirmos imigrantes a defenderem como suas as ideias de um partido anti imigração?

Tem que haver um caminho alternativo a esta espiral, num tempo em que um candidato social-democrata é apelidado de extrema-esquerda pela comunicação social dominante.

Até para a semana

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