A Gorjeta

Crónica de Opinião
Terça-feira, 26 Maio 2020
A Gorjeta
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

A oposição desconfinada na AR, e um pouco pelos diversos lugares que ocupa em instituições da dita sociedade civil, regressou à habitual atitude pandémica. É a que trata de desatar a exigir na oposição o que quando foram, no caso do Governo central, ou são, nos governos locais, poder executivo não praticam. É uma velha táctica que resulta não só numa fórmula que alavanca actores políticos de fraca qualidade, como enterra eleitores que deixam, assim, de ir às urnas.
Desta vez foi, obviamente, cavalgando a onda da popularidade dos profissionais de saúde. Fizeram-no alimentando a necessidade popular de novos deuses, os que ganham visibilidade através de janelas para o Mundo, mas com vidros espelhados, dos dois lados, o que tolda qualquer possibilidade de uma relação duradoura. Os dois casos tratam, afinal, de gorjetas: a do recibo de vencimento de 60 euros dos enfermeiros que, estando de baixa, apenas reportavam as horas extraordinárias devidas do mês anterior; e a pedichince de um reconhecimento monetário para os médicos de saúde pública que estiveram destacados na batalha directa com o Covid-19.
O caso dos enfermeiros jogou com a fraca literacia de quem ainda lê resumos de notícias de jornais. E quem distribuiu o jogo foi a bastonário Cavaco. Jeitosamente, omitiu no alarde o facto de, estando esses profissionais de baixa, o recibo mensal não ser o do ordenado mas o da pensão, emitido assim por outro Ministério.
Já o caso dos médicos, não escondeu o facto de, na sua tabela remuneratória, haver uma quantia de três dígitos que prevê a recompensa da disponibilidade que os profissionais aceitam para, em casos de necessidade nas instituições públicas que servem,prestarem os seus serviços para além dos limites habituais. Quantia fixa que recebem, portanto, sempre, haja ou não situações ou estados de emergência. Mas isso não impediu de terem representantes seus, até na bancada da AR, a pedinchar. E cito, de um artigo de semanário, o que se pede: “um modesto reconhecimento pelo sacrifício pessoal que estas mulheres e estes homens fizeram nesta pandemia” (Expresso, 22/05/2020). Isto num parágrafo que, está bom de ver, no mais fácil estilo populista e demagógico, se fala de prémios a gestores e empréstimos a bancos.
Manda a educação, a que não é prioridade nos bancos das escolas, e o humanismo que sejamos reconhecidos a quem nos serve e ajuda. Manda o civismo contemporâneo que não se utilize a condição mais confortável – pela informação ou posses relativamente privilegiadas – para humilhar os que mais delas precisam. Querer fazer-nos crer que o Estado aldraba ou que uma gorjeta resolve problemas, até inerentes a várias profissões que idealmente merecem ver resolvidos, é tentar humilhar-nos a nós, os que assistimos aos jogos de poder. E isso, mesmo numa partida de retórica, é batota.
Até para a semana.

 

Cláudia Sousa Pereira

Universidade de Évora
Departamento de Linguística e Literaturas
CIDEHUS.UÉ
Centro interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades

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