A Grande Marcha de Ventura

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 21 Setembro 2020
A Grande Marcha de Ventura
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

“Será uma grande marcha – a maior alguma vez vista em Portugal neste tipo de evento” contra o anti-racismo para esconder a corrupção.

Foi assim que André Ventura anunciou a sua vinda a Évora e para a qual apelou à mobilização dos apoiantes do Chega de todo o país: todos a Évora! dizia ele.

Realizar a manifestação e a Convenção do Partido em Évora era para Ventura uma forma de dizer à Comunicação Social que também no Alentejo, terra de democratas, ele e o seu partido se afirmavam. Mas mostra também fraca coragem já que, ao mesmo tempo, em Évora minimizava riscos de insucesso uma vez que aqui, porque somos menos, a tal manifestação teria menor reacção que em Lisboa.

Enganou-se. Veio à lã e saiu tosquiado.

André Ventura chegou a Évora e à sua espera tinha os militantes do Chega. Se vieram todos, não sei. Mas os que vieram à Manifestação e chegaram à Praça do Giraldo eram poucos. Muito poucos, para a prometida “maior manifestação de sempre”, se tanto umas 3 centenas, e sem chama, a não ser a chama dos archotes – pindéricos, diga-se – que alguns empunhavam fazendo o apelo simbólico à intimidação de outras marchas e de outros tempos, que querem reeditar.

Na Praça do Giraldo, uma praça dividida por grades anti motim colocadas pela Policia, onde grandes cravos vermelhos pareciam nascer do chão, das janelas, espalhados por todo o lado, Ventura foi recebido ao som da Grândola Vila Morena, cantada pelo Zeca e por umas centenas de cidadãos e cidadãs, jovens e mais velhos, punhos erguidos, cravos na mão, mostrando que o Povo é quem mais ordena e que fascismo não passará.

Foi bom ver tantas e tantos jovens cometidos na luta contra o fascismo, pela liberdade.

Durante a tarde associações e colectivos, tinham colocado cravos e instalado simbolicamente um muro, mostrando que “Muros já eram”, e estendido faixas, tudo feito nos dias anteriores por gente motivada. Jovens, muito jovens, leram poemas a partir da varanda da SHE e fizeram a festa.

Iniciativas que convergiram com a manifestação “pela liberdade”, convocada por um grupo de cidadãos, umas e outra contra o fascismo, pela defesa da liberdade, da democracia, contra o racismo, a xenofobia, a homofobia.

Ventura falou escassos 10 minutos e foi-se embora.

A grande manifestação nunca vista em Portugal durou 15 minutos e no final ouviram-se apoiantes, iguais a si mesmos e mostrando bem a massa de que são feitos, gritar para as mulheres do outro lado da Praça “Vão lavar a loiça!”.

Saíram da Praça, que não tomaram, sem honra nem glória, como tinha de ser, ao som de “Fascismo, Racismo não Passarão”, “O Alentejo é antifascista”, “A Praça é nossa”.

Em Évora Ventura não passou e ficou-lhe seguramente na boca o gosto amargo da humilhação na rua e de um congresso que lhe correu mal, em que a GNR foi obrigada a intervir dada a violação das regras sanitárias de distanciamento físico e uso de máscara por muitos dos participantes.

Um Congresso em que foram públicas as profundas divergências internas e em que a sua lista para a Comissão Política foi chumbada 2 vezes e só passou à 3ª, quando parte dos congressistas já tinha saído e ele ameaçava demissão.

Esperemos que não volte.

Para quem cá ficou e esteve do outro lado da Praça ficou a certeza de que, 46 anos depois do 25 de Abril, nada está garantido e que a democracia precisa de ser defendida, todos os dias, em todos os lugares, por todos os meios.

Como canta o Sérgio Godinho, “o fascismo é uma minhoca, que se infiltra na maçã, ou vem de botas cardadas ou com pezinhos de lã”.

Até para a semana!

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