A Guerra na Ucrânia

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 02 Março 2023
A Guerra na Ucrânia
  • Nuno do Ó

O Secretário Geral da ONU referiu-se recentemente à guerra na Ucrânia, sublinhando que será preciso fazer tudo para dar uma chance à paz, de alguma forma insinuando que não o fizemos ou que não o estamos a fazer. Restando poucas dúvidas quanto aos interesses que movem as grandes potências, interessa-me escrutinar o que a Europa tem feito para que os valores democráticos que alega defender se concretizem numa posição coerente do velho continente. Será assim…!?

A guerra de que hoje falamos começou no momento em que a Europa aceita a expansão da NATO para Leste… refiro-me àquela organização defensiva a que pertencemos e que se orgulha de ter bases, tropas e equipamento ao longo de grande parte da fronteira da Rússia. Imagine-se se o mesmo acontecesse no México ou nalguma ilhota ali perto… ah, é verdade, a última vez que estivemos à beirinha de uma guerra nuclear, foi durante a famosa crise dos mísseis de Cuba… se bem nos lembramos, naquela pequena ilha, não era admissível haver armas soviéticas, nem que para isso nos lançássemos numa terceira guerra mundial, que foi por pouquinho…

14 países, quase todos com fronteira com a Rússia, aderiram à NATO, depois da queda do muro de Berlim, mormente os acordos então estabelecidos. Claro, os acordos não foram escritos e por isso não se consideram… e claro que o fazemos por receio da Rússia… do outro lado não precisam ter medo, como tem sido evidente ao longo da história do ocidente. Que o digam os iraquianos… ah não, esse foi um erro… desconhecíamos que afinal não havia armas de destruição maciça no iraque… percebemos isso mais de meio milhão de mortos depois… mas pronto, que o digam os afegãos, os líbios, os palestinianos, os sírios, os argelinos, os países africanos, as vítimas das companhias orientais, os indianos, os panamianos, os colombianos, todos os povos da américa do sul… sim, não haverá razão para ter receio do ocidente…

A voz das armas na Ucrânia começou a ouvir-se em 2014, na sequência de um golpe de estado, sobre um regime democrático, sobre o qual a Europa democrática nada disse… O conflito armado que se seguiu, no leste da Ucrânia, até 2016, dados da ONU, matou cerca 10 mil pessoas. A Europa também nada disse de relevante sobre o assunto, mas pronto, deviam ser separatistas que teimavam na independência ou em falar russo, talvez…

A Europa não cede no princípio da autodeterminação dos povos… bem, da Catalunha não… Taiwan, sim, claro, palestina, nem pensar, a não ser que Israel deixe, sara ocidental, depende dos interesses do dia, timor-leste, claro que sim… donbass, claro que não… bem, são situações em tudo diferentes quanto aos interesses europeus, é isso… e para que não subsistam dúvidas em como somos democráticos e pluralistas, desligamos os canais russos das nossas televisões, como castigo, exemplar e democrático… e nada contra a proibição do uso do russo na Ucrânia, claro, em defesa da liberdade!

Zelensky, legitimamente eleito na sequência de um golpe de estado, recolhe a unanimidade do nosso mundo, pelo que se vê, pela oposição ucraniana, que num ambiente, agora sim, democrático, não aparece, certamente por vontade própria. A maioria dos ucranianos já estarão convencidos, sem dúvidas, pelo menos que se vejam, que a solução para a Ucrânia seria enfrentar a Rússia, promovendo a todo o custo a entrada para a união europeia, junto da civilização e do bom gosto e mais importante, a entrada na NATO, essa, totalmente inofensiva, uma vez que se trata de uma organização exclusivamente defensiva.

A NATO, essa organização de defesa da liberdade, nunca cedendo aos seus elevados princípios, envia tanques, bombas e mísseis defensivos para a Ucrânia, ameaçando desde logo outros que façam o mesmo do outro lado, que por sua vez ameaçam com a guerra nuclear, se a linha vermelha for ultrapassada… a tal que nunca sabemos onde está e que sempre aparece de repente, como foi na 1ª guerra mundial, com o assassinato do arquiduque da Áustria ou na 2ª. guerra mundial, quando a Alemanha invadiu territórios na polónia que considerava pertencer-lhes, o que levou os aliados a uma declaração de guerra que terminou 60 milhões de mortos depois, metade deles, russos.

Termino. Não vejo nada que me faça confiar novamente nos nossos líderes europeus… ainda oiço poucas e sábias vozes de uma pequena minoria, sempre a mesma. Mais uma vez, à beira abismo, não medimos as consequências, à espera do dia em que já não dê para voltar para trás… sim, porque desta vez poderá não haver vencedores. Com as vozes da guerra e das armas a falarem mais alto, não daremos pela linha vermelha a chegar e questionaremos, como foi possível?… a mesma questão que muitos ucranianos estarão agora a colocar… é talvez tarde… talvez seja tarde agora e será tarde, certamente, se assim continuarmos, sem adultos na sala… António Guterres tem toda a razão. Não demos qualquer hipótese à paz. Nem estamos a dar.

Até para a semana.

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