A imortalidade de uns e a previsibilidade de outros

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 15 Março 2018
A imortalidade de uns e a previsibilidade de outros
  • Eduardo Luciano

 

 

Fomos surpreendidos com a notícia da morte de Stephen Hawking, o físico britânico que desafiou todas as teorias das probabilidades ao sobreviver durante cinquenta e cinco anos, após o diagnóstico de uma doença que previsivelmente o retiraria do mundo dos vivos em dois anos.

O homem que nasceu exactamente trezentos anos depois da morte de Galileu foi um exemplo de académico, uma lição de vida para os que se atrapalham com pequenas contrariedades e alguém que nunca foi incapaz apesar da doença que tinha ser considerada incapacitante.

Depois do diagnóstico e sabendo que teria uma vida de curta duração fez tudo o que queria fazer. Estudou, casou, teve filhos, escreveu livros, construiu teorias numa área muito complexa do conhecimento.

Afinal não morreu aos 23 anos, como seria previsível, mas aos 76, preso num corpo reduzido à actividade mínima.

Hawking, para além dos seus contributos para a ciência, mostrou que seja qual for a nossa idade ou condição de saúde, temos sempre a vida toda pela frente e temos a obrigação de fazer dela o que acharmos que devemos fazer. Viver sem olhar para o fim da vida.

Neste mesmo dia, de celebração da longa vida improvável de Hawking, na Assembleia da República de um pequeno país do continente europeu aconteceu o que era previsível.

O Partido Comunista colocou na agenda a discussão de um conjunto de propostas de alteração às leis laborais com vista a acabar com a caducidade da contratação colectiva, a repor o tratamento mais favorável ao trabalhador e a revogar as normas da desregulação nos horários.

Previsivelmente, tais propostas tiveram a oposição do CDS e do PSD e foram acompanhados nessa posição pelo PS.

Esta coisa de ser de esquerda é muito bonita até ao momento em que toca no essencial ou, como costuma dizer o outro, na contradição insanável entre os interesses do trabalho e do capital.

Previsivelmente, a administração da Altice contou com a colaboração de João Proença, militante do PS e ex dirigente da UGT, para obter o que pomposamente chamou de “paz social”. Previsível, o percurso de João Proença é de uma coerência inatacável. Esteve sempre do mesmo lado do muro e mesmo quando pretendeu fingir estar em cima dele foi sempre com aquele ar de quem diz “era a brincar”.

Como diria a minha querida prima Zulmira, há cenas que nunca mudam até que se lhe ponha um fim.

Já tarda.

Até para a semana