A importância da documentação

Nota à la Minuta
Sexta-feira, 15 Abril 2022
A importância da documentação
  • Alberto Magalhães

 

 

Vá-se lá saber o que, por vezes, passa pela cabeça de um homem. Se há quem seja reflexivo, ponderado, também existem os impulsivos. Provavelmente o caso do Luís Silva, que aqui atrasadamente, tendo já cumprido grande parte de uma pena de 12 anos na cadeia de Coimbra, quando já beneficiava de saídas precárias e, precisamente, numa dessas saídas, ou porque estivesse bom tempo e a ideia de voltar à gaiola lhe aparecesse deprimente ou por outro qualquer motivo de ocasião, resolveu frustrar as expectativas carcerárias e dar uma de emigrante.

Meses volvidos, farto talvez de penar no estrangeiro ou simplesmente depois de um dia se ter posto finalmente a deitar contas à vida e ao seu futuro, o Luís resolveu arrepiar caminho e abandonar a clandestinidade. Voltou então a Portugal e apresentou-se na segunda-feira passada em Coimbra, no estabelecimento prisional para onde deveria ter voltado meses atrás, na firme decisão de cumprir o resto da sua pena sem mais delongas.

‘Era o que faltava. Isto aqui não é o da Joana. Tu dizes que és o Luís Silva que estava cá a cumprir pena e fugiu numa precária? Ora, ora, e como provas a tua identidade? Não apresentas cartão de cidadão, nem certidão de nascimento, como é que queres que a gente te acolha?’ Esta foi a recepção que o Luís não esperava, da parte do director da cadeia. A própria Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais reiterou esta posição: sem identificação ou um documento que provasse a legalidade da sua apresentação na cadeia, não podia ser aceite.

Consta que, revoltado por não terem dado pela sua falta e se recusarem agora a aceitá-lo de volta, sentindo a vertigem de ser uma não-pessoa aos olhos de quem dele deveria cuidar, o Luís se fartou de chorar.

 

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