A interseccionalidade, pois então. Habituem-se.

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 03 Março 2021
A interseccionalidade, pois então. Habituem-se.
  • Alberto Magalhães

 

 

Visto daqui, o mundo parece cada vez mais estranho, a cada dia que passa. A teoria interseccional, de que já aqui falei, a propósito do deslumbramento com que a deputada Joacine a descobriu, estuda a intersecção de diferentes identidades, dadas pela classe social, o género, a raça, a orientação sexual, a idade, e outros factores que poderão gerar desigualdade e discriminação. Digamos que não se inventou ainda nada melhor para dividir, subdividir e tornar a dividir, determinada população em tribos, grupos, grupinhos e grupelhos, colocando-os numa escala de mais ou menos oprimidos, uns, de mais ou menos opressores, uns e outros.

O caso agora relatado pelo The Guardian, é paradigmático da confusão provocada pela interseccionalidade como visão do mundo. A editora holandesa Meulenhoff, decidiu publicar o poema lido pela jovem Amanda Gorman, na tomada de posse de Joe Biden. Para traduzir o poema, The Hill We Climb, resolveu contratar Marieke Lucas Rijneveld, que ganhou em 2020 o prémio literário International Booker, com o livro The Disconfort of Evening.

Acontece, que a jovem poetisa americana é negra e a Marieke de nada lhe valeu ser não-binária (não se identificando como homem ou mulher e preferindo ser tratada no plural – ouviram bem), o que a colocaria bem alto na escala de discriminação, não fora… ser branca. Num artigo publicado no jornal holandês Volkskrant, a jornalista e activista Janice Deul considerou incompreensível a sua escolha que, segundo ela, terá provocado muita dor, frustração, raiva e desilusão, expressa por muitos nas redes sociais. Porque era preciso que a tradutora escolhida fosse uma “mulher” e “assumidamente negra”.

Marieke Lucas, claro, desistiu de ser a tradutora. Apesar de dois em uma, ser também assumidamente negra era demais até para a sua camioneta.

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