A judicialização da cena, ou o caminho para o abismo

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 01 Fevereiro 2018
A judicialização da cena, ou o caminho para o abismo
  • Eduardo Luciano

Cresce, de forma aparentemente imparável, a onda de notícias sobre supostos casos de corrupção ligados a actividades políticas, desportivas e outras.
A avidez com que tais notícias são consumidas, a mórbida curiosidade acerca dos pormenores mais sórdidos, a completa ausência de sentido crítico sobre o que se consome, acicatada por toda a espécie de especialistas da asa (dos que sabem tudo sobre asas, da asa do penico à asa do avião), está a moldar uma sociedade que faz da expectativa salvífica acerca de um qualquer salvador impoluto como um motor de esperança, a única saída.
Todos sabemos para onde se caminha quando o moralismo, o justicialismo e a ânsia de julgar com base numa qualquer percepção se instalam. Caminha-se para os fascismos de diversas matizes, com mais ou menos violência, mas sempre com a intolerância como pano de fundo.
Julga-se na praça pública de forma tão eficaz, que a notícia da constituição de arguido é muito mais impactante do que a divulgação da sentença. Em particular se a sentença for de absolvição.
É fácil apontar para os “correios da manhã” e as “TVis” desta vida, como os principais impulsionadores desta onda histérica, mas temos também de valorizar os pequenos contributos que alguns, supostamente bem-intencionados, vão dando no seu dia-a-dia.
Escrevem numa espécie de sub mundo da insinuação torpe, pegando em factos que distorcem até caberem numa qualquer suspeição. E como todos sabemos, é muito fácil neste caldo lamacento construir a linha condutora que leva à condenação social.
Os que deveriam contribuir para o esclarecimento, são os que confundem arguidos com acusados e uns e outros com condenados. A presunção de inocência, pedra basilar da justiça, é substituída pela presunção de culpa ancorada no ditado popular “não há fumo sem fogo”.
Para que haja muito fumo o segredo de justiça é violado alegremente e o resultado publicado diariamente como se de uma telenovela se tratasse, sempre com uma estranha impunidade nunca contestada.
Neste lamaçal em que tudo é confundido mergulham-se igualmente culpados e inocentes, salpicam-se de excrementos noticiosos gente que nada tem a ver com crimes ou atitudes eticamente reprováveis, apenas para gáudio de um público-alvo que prima pela iliteracia, pelo mais mesquinho sentimento de inveja ou pela necessidade de alienação que lhe permita sobreviver à exploração diária.
Tudo isto é multiplicado nas redes sociais por milhões de pessoas que sofrem do que se poderia chamar a doença degenerativa da solidão e que ameaça transformar-se em doença aguda e de cura improvável.
Como diz a minha prima Zulmira, quanto menos vida temos, mais julgamos a vida que imaginamos nos outros.
E é nesta construção social que os verdugos continuam a ser verdugos e os explorados continuam a aceitar a sua condição como necessária. Afinal, dizem eles, sempre assim foi.

Até para a semana

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