A luta digna e a indignação dos que não se levantam

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 25 Janeiro 2018
A luta digna e a indignação dos que não se levantam
  • Eduardo Luciano

Há meses que os trabalhadores da Autoeuropa estão no centro de uma discussão que ocupa o espaço mediático, por causa da sua luta contra a imposição de um regime de trabalho que os obriga a laborar aos sábados.
Nesta discussão, muitas vezes estéril e sem sentido, ouvem-se as vozes dos que defendem a posição da entidade patronal, dos que defendem a posição de que os trabalhadores deveriam de abdicar de um dia de descanso semanal com a família, em nome da “paz social” e em defesa do investimento. Muito poucas vezes se ouvem as vozes dos trabalhadores e dos seus representantes.
Talvez por isso, ou talvez porque a ideia de que direitos e privilégios são a mesma coisa, temos trabalhadores indignados com os malandros que não querem trabalhar ao sábado, indignados porque ganham 580 euros e os malandros da Autoeuropa ganham 650, indignados porque os malandros dos trabalhadores da Autoeuropa estão a reclamar de barriga cheia quando deveriam era agradecer pelo facto de terem emprego mais ou menos certo.
Não deixa de ser sociologicamente interessante de analisar esta postura de quem, explorado todos os dias, acha que os que lutam para atenuar a sua exploração estão a querer uma vida de nababos onde até exigem não trabalhar aos sábados, imagine-se. Mas apesar da compreensão do fenómeno no âmbito do entendimento do complexo momento que atravessa a correlação de forças no contexto da luta de classes (sim, existe), não deixa de ser irritante ouvir trabalhadores a avaliar a posição digna de outros trabalhadores de forma negativa e virarem a sua indignação contra aqueles a quem deveriam a sua solidariedade de classe.
Estavas à espera de quê? Perguntam-me. Querias consciência de classe generalizada, quando todos os minutos do dia te dizem que não existem classes, que os trabalhadores são colaboradores, que um direito adquirido pela luta passa a privilégio se for colocado em causa pelo patrão ou por proposta do governo?
Por acaso até me dava jeito que assim fosse. Dava-me jeito que, em vez de se indignaram com trabalhadores em luta, se indignassem com a acumulação extrema de riqueza, com o privilégio de poder fazer despedimentos colectivos, com o privilégio de poder decidir unilateralmente da vida dos trabalhadores e das suas famílias, comprando o direito ao descanso.
Confundir direitos com privilégios, em função do que cada um ganha, é o caminho mais curto para que lhes toque à porta a aplicação das mesmas “medidas correctivas” que aumentam a desvalorização do trabalho.
Enquanto a coisa correr assim, enquanto os que ganham 500 acharem que os que ganham 600 são uns privilegiados, enquanto o lucro for olhado como um direito e o salário ou o horário de trabalho como um privilégio, esta sociedade iniqua está garantida por aqueles que menos beneficiam do seu “plano para mil anos”.
É a velha história do momento certo para uma revolução. Quando os de cima já não podem e os de baixo já não querem.

Até para a semana

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