A minhoca

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 30 Janeiro 2023
A minhoca
  • Bruno Martins

O país prometido a uma geração não se constrói. O salário não chega ao fim do mês. A habitação condigna e a preços justos é uma miragem. O frio chega em força e fazem-se contas para saber quantos minutos por dia o aquecedor pode estar ligado. Os alimentos mais básicos são pagos a preço de ouro. Nas notícias: os milhões esbanjados nas Jornadas Mundiais da Juventude, os casos no Governo que se acumulam e as notícias sensacionalistas que se tornaram a nova forma de vender os jornais e financiar canais de televisão.

Cresce a raiva, a desesperança e a descrença. As emoções negativas dominam e a esperança no futuro é pequena. Venderam-nos, durante anos, a ideia do empreendedorismo e do individualismo. Disseram-nos que havia que subir a pulso e que o colectivo para nada contava. Ficámos sós, cada vez mais sós. E sozinhos lidamos com a raiva, a desesperança e a descrença.

Sozinhos não acreditamos que conseguimos combater os poderosos, e por isso é tão fácil apontar as armas contra o vizinho que recebe o RSI ou contra o imigrante que achamos que nos tira o pão da boca. Sozinhos não temos paciência, não partilhamos, não construímos coletivamente pensamento e ação. Sozinhos atrofiamos. E na atrofia, o ódio que nos domina parece ser a única solução.

E neste caldo que nos deram, que nós deixámos cozinhar em lume brando, a extrema-direita encontra o seu caminho. Ela aí está, normalizada, procurando canalizar o ódio para destruir o pouco que nos resta.

Portugal, 2023: o fascismo, e com ele o ódio, a desigualdade, o racismo, a xenofobia, estão normalizados. O fascismo desfila nas televisões e nas rádios e infecta quem se sente cada vez mais só e abandonado.

Se não ousarmos voltar à esperança da solidariedade, ao brilhantismo do pensamento colectivo, à união de quem trabalha e constrói este país. Se não ousarmos sair da toca e lutar. Se não ousarmos dar as mãos e em conjunto construir um país verdadeiramente justo e solidário, um dia pode ser demasiado tarde.

É mesmo este o caminho que queremos percorrer?

Até para a semana.

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