A morte de António Doce

Nota à la Minuta
Segunda-feira, 14 Dezembro 2020
A morte de António Doce
  • Alberto Magalhães

 

 

Não conhecia o António Doce. Mas fui, durante anos, colega da Cristina, no Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital. Ela, secretária da equipa infanto-juvenil, era o nosso primeiro contacto com as famílias. Sempre doce, fazendo jus ao nome do marido. Não merecia ficar sem ele, assim, brutalmente, fruto de violência meio tresloucada.

Entretanto, as redes sociais fervilham e a indignação quase nunca é boa conselheira, embora seja até muito compreensível num caso destes. A violência sem escrúpulos demonstrada pelo guarda prisional Fortuna Malengue, parece inquestionável e de acordo com o seu passado conhecido.

Mas o espantoso é a facilidade com que, em gente habitualmente pacífica, ela espoleta ânsias de linchamento imediato, proclamações a favor da pena de morte, que nos fazem recuar ao ano de 1770 a.C. e ao código babilónico do rei Hamurábi, onde já se encontrava a chamada lei de talião, depois inserida no Antigo Testamento e que ainda invocamos às vezes, na fórmula “olho por olho, dente por dente”. É instintivo, eu sei! Mas a civilização também evoluiu para nos ajudar a controlar a vontade de vingança. E a Bíblia evoluiu para o Novo Testamento.

Também espantosa, a facilidade com que outros tentam fazer o aproveitamento político deste bárbaro assassínio. Uns, pedindo o voto no Chega, como solução óbvia para todos os males do país. Outros ou outras, salientando a faceta ‘violência doméstica’ do caso, como se não tivesse morrido um homem. E os mais óbvios, sugerindo que se um negro angolano matou um polícia branco, temos um caso de racismo, armando-se numa espécie de Mamadou Bá dos brancos racializados. Honremos a memória de António Doce, que morreu no cumprimento da lei.

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