A morte de Otelo e a promessa de libertação

Nota à la Minuta
Sábado, 31 Julho 2021
A morte de Otelo e a promessa de libertação
  • Alberto Magalhães

 

 

No dia 25, morreu Otelo Saraiva de Carvalho, figura fundamental no derrube da ditadura que, ao fim de 48 anos, já decrépita, ainda dava pelo nome de Estado Novo. Principal estratega do golpe militar de 25 de Abril de 1974, era um profundo analfabeto em matéria de política, como aliás ele próprio confessou várias vezes. Apesar disso, conseguiu que quase 800 mil eleitores (16,5%) votassem nele para presidente da República, em 1976, quando Ramalho Eanes foi eleito por mais de 60% de votantes e o candidato do PCP, Octávio Pato, se ficou pelos 7,6%. Mas em 1980, na reeleição de Eanes, três dias depois da morte de Sá Carneiro, a votação em Otelo e no seu projecto terceiro-mundista não chegou a um e meio por cento. Com notável precisão, Vasco Pulido Valente dissera dele, um ano antes: “Viva Otelo! Na reserva.”

Hoje, 31 anos passados, depois da sua cumplicidade, provavelmente tonta, com as FP-25, depois de cinco anos de prisão e da amnistia, a morte de Otelo Saraiva de Carvalho, é mais um pretexto para a exaltação tribal em que estes tempos são pródigos. Herói para uns, cúmplice de terroristas para outros, Otelo foi, não tenho grandes dúvidas, as duas coisas. Foi à Suécia, falou com Olof Palm, e veio de lá dizendo-se social-democrata. Depois foi a Cuba, fumou com Fidel Castro, e comprou-lhe, com candura, a sociedade perfeita. Tragicamente, fez as visitas por esta ordem. Acabou a defender um projecto que nos encaminharia para uma outra ditadura caso fosse concretizável, o que não era o caso.

Outro acontecimento marcante, na semana que passou: o primeiro-ministro António Costa descobriu que ele e os seus ministros têm de “presumir, de uma vez por todas, que as pessoas são adultas”, e que a matriz de risco intocável, porque indispensável, afinal era desadequada no actual contexto vacinal, e que a “libertação” do país se deve dar ao ritmo da vacinação. O plano apresentado não é perfeito, mas é um melhoramento substancial no stato quo vigente. Finalmente!

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