A morte de um homem e a hipocrisia dos vivos

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 24 Maio 2018
A morte de um homem e a hipocrisia dos vivos
  • Eduardo Luciano

 

 

Morreu um destacado militante do PS, homem que todos reconheciam pela sua frontalidade, honestidade e compromisso com as causas da justiça social.

Não importa aqui e agora tecer comentários sobre diferenças, contradições e opções políticas distintas. Sabemos que a morte é a grande niveladora e construtora de consensos sobre quem morre, em particular se se morre depois de muitos anos de vida e exposição pública.

De António Arnaut disseram-se nos últimos dias todos os elogios possíveis, vindos de todos os quadrantes políticos e isso poderá ser revelador do respeito que granjeou pela coerência da sua intervenção em todos as áreas da vida pública onde a sua voz se fez ouvir. Concordando ou não com o ideário político assumido não custará a ninguém enaltecer a forma como esteve na política.

Se tudo isto parece normal e até saudável, já não me parece razoável que a propósito da sua autoria da Lei de Bases do Serviço Nacional de Saúde, adversários confessos desse avanço civilizacional tenham vindo a público colocar-se do lado oposto daquele onde sempre estiveram, com declarações de uma hipocrisia que pede meças a qualquer tartufo de meia tijela.

Vimos gente a chamar ao falecido “pai do SNS” e a enaltecer essa “paternidade” como algo de extraordinário, que deveria corar de vergonha entra cada palavra proferida.

Gente que diariamente ataca o SNS, que defende o princípio do “utilizador pagador” ou, quando a coisa lhes está mais de feição defende mesmo que “quem quer saúde paga-a”, de repente apareceu como se sempre estivesse do outro lado da barricada.

Partidos que votaram contra a lei de bases e que sempre que estiveram no governo tudo fizeram para desvirtuar o serviço nacional de saúde, agora até parece reclamarem um regresso à “pureza original” do projecto que sempre combateram.

Gente que quando teve responsabilidades governamentais legislou no sentido de transferir para o sector privado meios e financiamentos e que resultam em muitas das dificuldades por que hoje o SNS está a passar, transformou-se num par de dias numa coisa que nunca foram.

A hipocrisia e a falta de vergonha não têm limite.

O falecido teve um importante papel construção do edifício legislativo do SNS e foi durante a sua vida um defensor coerente da ideia dos cuidados de saúde universais e gratuitos para todos, mas o SNS teve milhares de pais e mães, profissionais da saúde e de todas as outras áreas que construíram o que ainda é hoje um dos melhores sistemas de saúde pública do mundo.

António Arnaut disse um dia que fazer a lei foi o mais fácil e eu concordo com ele. Difícil é evitar a destruição do que foi construído transferindo para a exigência do lucro dos privados o que é um direito básico dos seres humanos.

António Arnaut fez e bem a sua parte e até ao final da vida esteve do lado da defesa do sistema de saúde público. A todos nós compete-nos combater para que os hipócritas do elogio fácil não destruam paulatinamente o que nos últimos dias fingiram elogiar.

Até para a semana