A morte do pequeno Rayan

Nota à la Minuta
Segunda-feira, 07 Fevereiro 2022
A morte do pequeno Rayan
  • Alberto Magalhães

Na pequena aldeia de Ighran, perto da cidade azul de Chefchaouen, em Marrocos, a notícia aconteceu. Rayan, de 5 anos de idade, caiu num poço de 45 cm de diâmetro e 32 metros de profundidade. Ao fim de cinco dias o corpo do pequeno Rayan foi resgatado. “Marrocos em estado de choque”, titulava o DN e ia mais longe no subtítulo: “Um final trágico de uma gigantesca operação de resgate de cinco dias que prendeu o país e o mundo”. O mundo? Talvez um exagero! Marrocos? Sem dúvida. Portugal? Sou testemunha: chegaram a estar a SIC-N, a RTP 3, a CNN-P, e a CMTV, com as mesmas imagens, em directo de Ighran, onde se podiam, com paciência, observar a lenta evolução das manobras de resgate. Mas dos canais internacionais que tenho disponíveis em casa, apenas um (espanhol) transmitia essas imagens, num pequenino rectângulo do canto inferior direito do ecrã, enquanto dava as últimas sobre o berbicacho na Ucrânia.

Não quero criticar os que se emocionaram com o azar do pequeno Rayan, incluindo Macron, o Papa Francisco e alguns dos meus amigos do Facebook. Apenas salientar a força da informação-espectáculo, que durante horas se aproveita do drama de uma família, transformado em reality show para prender os espectadores ao ecrã. Curioso também o protagonismo de colegas psicólogos, a debitarem discurso altamente elaborados sobre o que a criança estaria a sentir, os traumas que a assolariam e o tratamento psicológico a que deveria ser submetida depois de salva, sem esquecer o que dizer às nossas crianças para as livrar de pesadelos claustrofóbicos.

Que eu reparasse, ninguém disse duas coisas que me saltaram à vista. Primeira, o absurdo de uma criança de cinco anos cair naquele poço enquanto, diz o DN, o pai estava a concertar o dito cujo. Segunda, o absurdo da cobertura mediática que o destino do pequeno Rayan mereceu, quando no mundo, e até no nosso país, ao mesmo tempo, milhares de outras crianças padeciam anónimas, sem merecer a mínima atenção.

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