À Nação valente nem sempre, nem nunca

Crónica de Opinião
Terça-feira, 16 Junho 2020
À Nação valente nem sempre, nem nunca
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Lá fez o PR o gosto ao dedo organizando, da maneira que quis a mais exemplar das exemplares, a cerimónia oficial do 10 de Junho deste ano bizarro e sem graça de 2020. O ano em que se comemorou pela centésima vez o Dia. Quis que fosse simbólica e não fez senão, com isso, repetir exactamente o que são todas as cerimónias comemorativas: simbólicas. Lá se estragou mais um bocadinho o uso do adjectivo. É que não foi particularmente simbólica da data mas, parece-me, muito mais simbólica deste PR.
Marcelo quis tanto, na sua magistratura, fazer comemorações no território que adjectivou como espiritual de Portugal, mas a Covid19 veio, cheia de “toupet”, estragar-lhe a festa. Quase parecendo remeter a Metrópole à sua condição contemporânea e civilizada em que já não há cá colónias fantasmagóricas a evocar. Eu sei, eu sei que o princípio é não esquecer os Portugueses que criaram comunidades fora do território-mãe, de onde tiveram de, ou quiseram, sair, mas também me apeteceu fazer o meu “simbologismo espirituoso”. A coisa pôs-se-me a jeito. Teria sido na África do Sul, a do longo apartheid, e na Madeira, que amiúde reclama, em surdina e quando dá jeito, uma vontade independentista que tem tanto que se lhe diga.
A cerimónia valeu pelo rico e pedagógico discurso do Poeta clérigo, como também era previsível. A Covid veio confiná-la a um espaço simbolicamente perfeito: o mosteiro, lugar de recato, à beira do rio que foi cais dos que conseguiram daqui sair. No ano de 2020 em que Portugal tinha ao leme das comemorações do seu centésimo dia nacional um PR superstar, o super-herói da sociedade do espectáculo em que vivemos, assistimos à vanglória de quem, perante a contrariedade, habilmente tudo faz para manter o papel principal. A tempestuosa pandemia, o palco monástico, o discurso culto e humanista de José Tolentino de Mendonça (o melhor dos que tenho memória até hoje) de acesso difícil fora de certas elites, sem palmas. Tudo isto deu ao PR, por interposta pessoa, a oportunidade de brilhar como o melhor organizador de uma comemoração, que sempre quis popular, sem Povo. O melhor organizador de uma comemoração que pouco dirá aos que representam, da forma mais boçal, o Povo de que o PR se alimenta com as selfies e os insalubres beijinhos. A provar que se festeja por, pelo menos, três motivos: para não esquecer uma data precisa- o que não foi o caso; para alegrar os convidados – o que também não aconteceu; ou para enaltecer o anfitrião, provando que ele é que sabe como é que as coisas se fazem. Não foi de valente, mas serviu-lhe.
Até para a semana.

 

Cláudia Sousa Pereira

Universidade de Évora
Departamento de Linguística e Literaturas
CIDEHUS.UÉ
Centro interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades

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