A notícia, essa fonte mentira

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 17 Maio 2018
A notícia, essa fonte mentira
  • Eduardo Luciano

 

 

O regime dos Estados Unidos abriu uma embaixada em Jerusalém como forma de reconhecimento desta cidade como capital de Israel, construindo com essa atitude mais um degrau na escalada de violência no médio oriente e mais um aconchego, moral e material, ao processo de ocupação da Palestina e ao genocídio que lhe está associado.

O dia da inauguração da embaixada norte-americana ficou marcado por uma operação militar israelita que provocou mais de 60 mortos e cerca de 2200 feridos.

O tratamento noticioso destes acontecimentos primou pela menorização do que aconteceu, quando não mesmo pela mais básica operação de propaganda ao serviço do ocupante.

Quando se pretende tratar a ocupação israelita da Palestina, e o confinar os palestinianos a uma pequena faixa de território onde são condenados a viver em condições infra humanas, como se de uma guerra se tratasse, mais não se faz do que prestar serviço e vassalagem aqueles que durante os últimos 70 anos, ignorando todas as resoluções da ONU, têm exercido sobre a população daqueles territórios ocupados verdadeiras acções de extermínio e de limpeza étnica.

As notícias sobre os acontecimentos desse dia foram escassas, de breves minutos, e com enquadramento parcial, referindo-se sempre à repressão como …“confrontos”.

É desta forma que a notícia, essa instituição que tínhamos como fonte de verdade mediada, para a ser vista como a fonte da mentira descarada.

Nos últimos dois dias uma bando de energúmenos invadiu as instalações de um clube desportivo e desatou a bater em tudo o que mexia, desde jogadores a treinadores, não escapando a essa onda arrasadora o fisioterapeuta, esse tosco que não consegue meter um golo de baliza aberta.

As notícias, comentários, pareceres, sugestões, repetições de imagens e outras cenas tristes, passaram e ainda estão a passar em todos os canais televisivos com destaques inusuais para uma mera questão de polícia e onde há a lamentar alguns feridos ligeiros.

Claro que sabemos que o futebol exerce sobre as massas o fascínio de ser assunto de que todos são especialistas e por isso é utilizado à saciedade para processos de profunda alienação da consciência da dura realidade que nos rodeia.

Passaram 48 horas sobre esses acontecimentos e a coisa promete não abrandar até que todo o país saiba exactamente a dimensão da sutura na cabeça de um futebolista.

Aqui não se falou em confrontos ou de guerra ou de acção defensiva para garantir a segurança de ninguém. Neste caso, como se sabe, foi mesmo um acto terrorista.

Já as mais de 60 vítimas mortais do exército israelita mereceram meia dúzia de minutos no próprio dia e a palavra terrorismo, se alguma vez foi proferida, terá sido para acusar os mortos de qualquer coisa que poderiam vir a fazer.

A notícia como fonte de espesso nevoeiro que leva à canonização da verdade de uns poucos, mas que a maioria passa a repetir como sendo sua. Ainda que contra os seus próprios interesses.

Até para a semana