A Pandemia do Medo

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 03 Junho 2020
A Pandemia do Medo
  • Alberto Magalhães

 

 

Diziam-nos vozes várias, em tempos que já lá vão, que se impunha combater, em paralelo, duas pandemias: a do coronavírus e a do medo. Algumas dessas vozes teriam, certamente, preferido que seguíssemos o caminho da Suécia: descontracção e responsabilidade pessoal, com um mínimo de regras de precaução. Esse caminho não parece ter dado, comparativamente, resultados brilhantes. Ainda bem que não o seguimos.

Mas, a titubeante abertura de creches e jardins de infância e a absurda reclusão das crianças e adolescentes, que já deveriam estar de volta às suas escolas do ensino básico – tomadas, claro, todas as cautelas para não infectarem os adultos mais vulneráveis – deu-me vontade de recordar o belo poema de Alexandre O’Neill, intitulado ‘Perfilados de Medo’:

Perfilados de medo, agradecemos

o medo que nos salva da loucura.

Decisão e coragem valem menos

e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,

perfilados de medo combatemos

irónicos fantasmas à procura

do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,

o coração nos dentes oprimido,

os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,

já vivemos tão juntos e tão sós

que da vida perdemos o sentido…

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