A política, essa ausente das campanhas eleitorais

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 11 Abril 2019
A política, essa ausente das campanhas eleitorais
  • Eduardo Luciano

 

 

Neste ano de duas campanhas eleitorais de âmbito nacional, seria de esperar que a política estivesse no centro de todos os debates, enquanto confronto de ideias e de ideais, de afirmação de posições sobre os caminhos a seguir, de debate ideológico, de luta pela defesa de avanços ou pela bondade de retrocessos na melhoria das condições de vida.

Seria de esperar mas não é o que está a acontecer. O que se vê e ouve está fora de tudo o que é uma discussão política séria, assente em propostas concretas e caminhos apontados a um qualquer futuro. São horas a discutir relações familiares até à quinta geração, a contabilizar novidades por oposição a permanências ou a tentar roer a maçã do vizinho até encontrar uma qualquer mancha que indicie a presença de uma qualquer podridão.

As campanhas eleitorais transformaram-se em escrutínios de pureza moral, com os candidatos da extrema-direita a cavalgar nessas ondas de indignação e a arregimentarem apoios contra a “política” e os “políticos”. Não importa o que se propõe mas quem propõe, o aspecto físico que tem ou as suas relações familiares.

De campanha em campanha tudo se parece deteriorar e a vida dos que tentam fazer de forma diferente fica mais difícil.

Imaginem numa campanha para o Parlamento Europeu uns estarem a explicar que Europa e União Europeia são coisas diferentes e que ser contra a segunda não significa querer sair da primeira e outros estarem a dizer que são melhores porque o adversário é alto ou mais baixo, mais gordo ou mais magro, mais eticamente inatacável ou menos exposto a tentações.

Depois os cidadãos confundem isto com política e desistem de levar a sério todo e qualquer processo que, não sendo político, é conotado com a nobre actividade de cidadania que é a política.

Começou agora? Foi por causa de processos eleitorais como o do Brasil e dos Estados Unidos, que vieram demonstrar que o caminho do sucesso dos votos não era a política mas o submundo da mentira e da manipulação de massas que a tecnologia veio armar como nunca antes tinha acontecido?

É possível, mas este é um caminho que vem de longe e que rapidamente afunilou no estado a que chegámos e que também passou pelo amaldiçoar de algumas palavras. Passou por ser possível alguém dizer “voto contra este ou aquele documento por ser demasiado ideológico” em vez de afirmar que se votava contra por razões ideológicas. Por dividir os que lutam por causas em bons e maus, sendo que os maus são militantes e os bons são “activistas”, deixando de importar a causa pela qual se assumem. Por valorizar as “ONG” como fontes de toda a verdade e candura, sem distinguir origens, fontes de financiamento e objectivos, como se bastasse um carimbo para garantir a honestidade dos fins.

Não sabemos como começou, podemos divergir sobre como se desenvolveu, mas se formos honestos teremos de admitir que sabemos como pode terminar.

A luta dos que mantêm firmes e sem concessões a uma suposta modernidade, que é velha como tudo o que é podre, não se adivinha fácil, mas este não é o melhor momento para desalentos. É mesmo o momento para avançar, apesar do vento que sopra em sentido contrário. Por razões ideológicas, de forma militante.

Até para a semana