A trapalhada brasileira

Nota à la Minuta
Segunda-feira, 17 Abril 2023
A trapalhada brasileira
  • Alberto Magalhães

 

Há quem defenda que o inimigo do nosso inimigo nosso amigo é. Porém, este pressuposto deve ser tomado com prudência, pois nem sempre leva às melhores opções e, mesmo quando se impõe, exige ser rodeado de cautelas. Sobretudo quando, tanto um como outro, querem a nossa destruição. Veja-se a cooperação com Estaline para combater os nazis e o trabalho que deu, derrotado Hitler, conter o imperialismo soviético.

Muita gente que votou em Lula da Silva fê-lo por este ser o mal menor na disputa com Bolsonaro. A visita do presidente do Brasil à China e as suas declarações sobre geopolítica e, em especial, sobre a guerra na Ucrânia, mostram isso mesmo, que ele não passa do mal menor. Afirmar, como ele afirmou, que, para alcançar a paz, o Ocidente deve ‘secar’ o fornecimento de armas a Kiiv, é o mesmo que dizer que é preciso obrigar a Ucrânia a render-se ao invasor, e a aceitar o seu desaparecimento como país soberano. Afirmar que os culpados da existência da guerra são a UE e a NATO, que cercaram a Rússia e a obrigaram a defender-se, é papaguear a esdrúxula e paranoica tese de Putin tintim por tintim.

Em Portugal, tinha-se por seguro que só o PCP partilhava completamente desta posição, a par de alguma ambiguidade do BE. Ontem, a vice-presidente da bancada parlamentar do PS, Jamila Madeira, apareceu a avalizar as declarações de Lula da Silva, tratando-as como sendo uma exemplar “busca pela paz”. Pior, tentou comparar as declarações de Lula às de Macron, num assomo de demagogia barata. Macron não culpou a UE, os EUA e a NATO pela guerra, nem considerou que, se a guerra não pára, a culpa é tanto de Putin como de Zelenski. Tendo a deputada falado em nome do Partido Socialista, temos mais um caso a juntar à trapalhada de – presidente da República ou ministro dos Negócios Estrangeiros, um deles – ter convidado Lula para discursar no Parlamento, no 25 de Abril.

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