A vacinação e o resto

Nota à la Minuta
Quinta-feira, 02 Dezembro 2021
A vacinação e o resto
  • Alberto Magalhães

Nem mesmo o vice-almirante Gouveia e Melo resistiu. Teve de denunciar a ignomínia de estender o reforço da vacina a toda a população portuguesa, em vez de libertar as doses disponíveis para as populações africanas totalmente desprotegidas. na mesma lógica do bom cristão que defende que, em vez de comermos em excesso deveríamos alimentar, com o que nos sobra, os esfomeados do terceiro mundo.

Claro que, na realidade, os problemas de transporte e conservação e os obstáculos de distribuição, impostos pelas fracas redes viárias e ferroviárias, e de corrupção, impostos pelas oligarquias dominantes e mafias circundantes, resultam, normalmente, num rendimento medíocre para as populações, mesmo quando há um enorme esforço inicial.

Percebe-se que é do interesse europeu a vacinação de África. A Ómicron vem mostrar que, de facto, onde não há vacinação em grande escala, é mais provável aparecerem novas variantes, que acabam por cá chegar.

Aconselho, porém, a quem possa, a leitura do que escreve, na edição do Público de domingo passado, o médico intensivista Gustavo Carona, com experiência em Moçambique, Congo, Afeganistão e Síria, entre outros teatros de miséria. Diz-nos, por exemplo, que no Chade e no Benim, foram para o lixo 90% das vacinas que lhes foram oferecidas, por terem ultrapassado o prazo de validade.

Mas diz-nos mais: diz-nos que nos países pobres, a vacina contra o coronavírus talvez não seja a prioridade das prioridades. Diz-nos que todos os anos morrem 9 milhões de crianças no mundo e que, dessas mortes (por malária, gastroenterites, infecções várias, etc.) 70% seriam evitáveis com cuidados de saúde sendo, em 50% dos casos, a subnutrição (a fome) co-responsável. Chama, por fim, a nossa atenção para este simples facto: no mundo, em dois anos, morreram, de covid-19, 5 milhões de pessoas de todas as idades, ou seja, menos de metade das, anuais, 5 milhões e 600 mil mortes evitáveis de crianças.

Em resumo, os problemas do mundo mais pobre não são simples. Nem o da vacina da Covid-19, que nos interessa directamente; nem o da vacina da malária, que pode salvar 300 a 400 mil pessoas por ano; nem o da falta de assistência médica básica; nem o da pobreza extrema e da fome, que acaba por nos atingir com migrações desesperadas.

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