Aceitar e/ou Compreender

Crónica de Opinião
Terça-feira, 18 Outubro 2022
Aceitar e/ou Compreender
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Estes dois verbos, aceitar e compreender, pressupõem relações humanas, modos de convívio, formas de comunicar. Implicam a capacidade de, momentaneamente, passarmos a ter a perspectiva do outro e escolher um de quatro caminhos: compreender e aceitar; compreender mas recusar; não compreender mas aceitar; não compreender e rejeitar. Caminhar nestas encruzilhadas dá trabalho e requer tempo. Mas, numa sociedade progressista,  também se dá a oportunidade de correcção das rotas. 

A propósito do mais recente disparate dito por Marcelo Rebelo de Sousa, a destacar-se dos constantes e cansativos comentários sobre tudo e mais um par de botas, e mais visível porque num assunto gravíssimo, há várias oportunidades de lições a retirar. Se Marcelo não compreendeu as condenações que lhe fizeram mas as aceitou, já eu, insuspeita que sou de gostar ou ter alguma vez votado em Marcelo, compreendi muito bem as suas declarações, que expuseram o rascunho de um argumento em que lhe interessa acima de tudo defender os seus amigos. Mas não as aceito, porque não é esta a Igreja, enquanto organização de influência, que serve o interesse do progresso humanista, e que para pôr a ser, e manter, suas vozes mais importantes bispos com o calibre do do Porto pouco de si tem para dar;  embora acabe por aceitar as desculpas de Marcelo, depois de o ver espezinhado na praça pública por quem, mais do que pensar no dor das vítimas, viu neste deslize de Marcelo a oportunidade ideal para continuar a amarfanha-lo. E espero que tenha sido a sua oportunidade para começar a tratar da verborreia. 

E podemos reparar em mais: porque o assunto é, precisamente, verbalizar, falar sobre um crime a que se foi sujeito e que, tendo-lhe sobrevivido, custará recordar usando palavras que trazem de novo a dolorosa situação do passado, o cuidado no discurso sobre o assunto deve ser redobrado. Até porque o vento já não leva as palavras, elas ficam registadas, graças a esse avanço democrático da técnica, que começou pela escrita e o audiovisual refinou. 

Nas diferentes e despropositadas actuações, Marcelo traz várias vezes para cima do palco os ensaios de peças burlescas que nos dispensávamos de assistir. Mesmo, e talvez por causa de vivermos, em democracia e o escrutínio ser uma prática que a fortalece, o direito ao “rascunho” do seu exercício até que o público, todos nós, possa usufruir da versão final, podia evitar-se. E melhor ainda quando, uma vez estreada qualquer acção política, venha acompanhada com “folha de sala” e crítica plural e informada. 

Que tudo isto sirva para a consciência do poder da linguagem que muita gente menospreza. Sobretudo quando há quem, em certas escaladas, no seu próprio interesse, se torna porta-voz de, por exemplo, tragédias ou estatísticas, não passando de vozes de um coro ensaiado por um misto de pitonisa com corifeu, ou de ecrã de calculadora científica, o que ofende reais vítimas de tragédias, ou quem se sinta reduzido a mais um número. Sejam cidadãos comuns ou vítimas de um drama que ainda se tenta corrigir para o futuro, percebe-se que, para certas vozes, elas e eles se transformam, nesses discursos, em personagens, por vezes instrumentais. E as crianças e os pobres são as que têm, desde sempre, mais sucesso nos castings. 

 Há que dar atenção ao discurso, tal como há que perceber e distinguir a intenção e a irreflexão. E a ambas compreender e/ou aceitar, ou não. Tudo isto nos faz dar muito mais valor ao uso das palavras. E é como nos versos de Manuel António Pina: “São feitas de palavras as palavras (…) É o que falta que fala”. 

Até para a semana.

 

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