Acerca da dignidade

Quinta-feira, 31 Maio 2018
Acerca da dignidade

 

 

A propósito da discussão da moda, dizem-me que as redes sociais andam cheias de cientistas, moralistas e gente que a propósito do exercício maniqueísta do pró e contra enche a boca de palavras sonantes e respeitáveis.

Uma dessas palavras, usada como a bomba atómica de todos os argumentos, como a sentença final, o conceito absoluto e sem matizes subjectivas é a “dignidade”.

De repente, gente que se arrepia quando se fala em salários que permitam uma vida digna, gente que tem ataques de fúria quando por causa de uma greve em nome do direito a uma vida digna de ser vivida, é impedida de apanhar um qualquer transporte público, gente que tem uma apoplexia quando ouve falar em horários de 35 horas semanais ou em rendimento mínimo garantido, enche a boca com o direito a morrer com dignidade.

Quando se debatem questões como a vida e morte, verdadeiramente decisivas, manda o bom senso que ninguém se arrogue no direito de representar seja quem for. Que ninguém se encha de verdades que apenas o são para cada um e que não podem ser replicadas como moral ou tendência vigente para a maioria.

Só consigo entender a leveza dos argumentos utilizados, à luz do facto de nenhum dos argumentadores se encontrar na situação em que imaginam (como se tal fosse possível) que estarão as pessoas que se consideram mortas, apesar das suas funções vitais insistirem em dizer o contrário, mantidas de forma natural ou artificial.

Incomodam-me aqueles que não nos deixam escolher como queremos viver e se importam tanto com a nossa liberdade de decidir como morrer.

Incomoda-me os que transformam uma discussão ética e filosófica numa espécie de Benfica – Sporting da política da espuma dos dias, transformando uma das discussões mais interessante que se pode ter, num frente e verso de argumentos banais assentes numa qualquer paixão irracional por ventos contrários ou favoráveis a uma das decisões.

Sou dos que acham que tenho o direito a acabar com a minha vida assim que entender e não preciso de nenhum enquadramento legal para o fazer. Se não estiver em condições de o fazer pelas minhas mãos o que espero é que me poupem a sofrimentos desnecessários, mas isso não tem nada a ver com dignidade (da minha só eu é que sei), nem de como quero recordado (é assunto que só a mim me diz respeito).

Mas enquanto isso não me passar pela cabeça (espero nunca passar) o que eu quero mesmo é lutar por uma vida digna para todos os seres humanos, implicando isso que alguns deixem de viver à conta do trabalho de muitos.

O que eu desejo é ter sempre a lucidez para estar do lado da minha consciência de classe e nunca trocar o essencial pelo acessório.

Quanto à eutanásia, não consigo ter opinião. Tenho mais dúvidas do que supostas certezas e nem uma consulta à minha prima Zulmira me resolveu a questão.

Acho que está mais cínica e desiludida e daí que quando lhe tenha perguntado se era a favor ou contra a eutanásia, me tenha respondido: de quem?

Até para a semana